De permissão em permissão

pictureParece não haver qualquer relação entre a insegurança do Rio de Janeiro – com o Exército protegendo a campanha eleitoral – e a desordem em nossas esquinas. Mas há. O horror e o terror não acontecem de repente, por geração espontânea. É histórico: resultam da falência de civilizações e de sociedades. De permissão em permissão, de concessão em concessão, de complacência em complacência, de anuência em anuência – abalam-se alicerces, rompem-se estruturas, desmoralizam-se instituições.

Não há mais tempo para teorizar em relação à natureza do homem, à crueldade humana. Temos a capacidade de, ao mesmo tempo, ser anjos e demônios, perversos e bons. Sem controle, a besta investe. Há, pois, que se domesticar esse bicho- homem, capaz de maravilhas e de crueldades. Sem lei, sem educação, sem organização social justa, apenas retomamos o “struggle for life” darwiniano, a lei das selvas. Ver, todos estão vendo. Enxergar, enxerga quem quer, quem pode. Ou quem ainda consegue.

Para defender Luiz Carlos Prestes – quando preso e torturado pela polícia de Getúlio – o advogado Sobral Pinto, um dos mais lúcidos humanistas deste país , buscou remédios heróicos para defendê-lo. À falta de amparo legal num estado então totalitário, recorreu ao último recurso que lhe sobrara para defender os direitos primários do líder comunista: a lei de proteção aos animais. Já àquele tempo, no Brasil, seres humanos pareciam parte de uma geografia secundária. De tanto tentar, talvez realizemos o sonho dos loucos: uma humanidade sem humanos.

A proteção aos animais e aos bens patrimoniais mostra-se mais eficiente do que ao ser humano. O consumidor tem mais garantias e defesas do que o cidadão. Não me esqueço do que, há alguns anos, me disse uma leitora, com naturalidade absurda: “Não vejo diferença entre dar um pedaço de pão a uma criança abandonada ou a um cachorrinho.”

A tragédia social do Rio de Janeiro não aconteceu por acaso nem tem causas apenas mediatas. É uma sociedade em frangalhos. E – quando já se fala em crimes cometidos por “intolerância” – talvez devêssemos nos perguntar se não é o contrário: não seria o excesso de tolerância que nos destrói? Tolerância com bandidos, tolerância com corruptos, tolerância com infratores, tolerância com injustiças, tolerância com todas as formas de iniqüidade? Ora, a tolerância – como princípio – é um dos bens preciosos da civilização. Mas, como máscara, pode tornar-se um dos seus venenos destruidores. Nem sempre tolerar significa respeitar.

Tolerância pode confundir-se com concessão, algo que pessoas ou instituições – dando-se direitos plenos – exercem em relação ao outro. Essa mentalidade – a da casa grande em relação à senzala – impregna, ainda, a vida brasileira, como que colada à pele do poder. A liberdade e a democracia tornam-se, assim, permissões, direitos tolerados. Uma sociedade madura é intolerante e intransigente, radical e inflexível diante da lei.

Tolerantes diante da sucessão de pequenas infrações acabamos sendo-o, também, na sucessão dos grandes delitos. Começou assim na Alemanha de Hitler. E penso seriamente nisso, quando se soltam rojões pela vinda de uma grande empresa coreana a Piracicaba. Qual o suporte social para isso? É assunto que mereceria grande discussão que não houve antes. Mas que precisa ser feita agora. Bom dia.

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