De pés para o ar, comendo pipoca

PipocaCerta vez, as declarações e desabafo de uma grande atleta, a Janeth, aumentaram-me inquietações. “Vou ficar de pés para o ar e comer pipoca…”, falou ela. E, então, uma imagem antiga e perturbadora me ressurgiu na lembrança, como um filme revivido. Imagem tão antiga que me incomodei ainda mais. Ora, como se retêm um flagrante, uma cena, acontecidos há mais de 40 anos? Foi na morte do presidente Kennedy, quando a bala assassina assustou o mundo como se fosse uma outra e universal bomba atômica.

A confusão, o caos, o medo, a perplexidade não há como descrevê-los, pois não tínhamos, ainda, o horror como hábito. Foi no dia 22 de novembro de 1963, data que se não esquece. Aliás, tornou-se mania mundial perguntar a alguém: “Onde você estava quando Kennedy foi assassinado?” Pois eu estava na redação de meu jornal, um jovenzinho de 23 anos com a carga da direção jornalística nas costas. Recém-casado, ainda sem filhos, havia belezas digamos que primaveris no mundo, como que promessas do belo e do bom. Mas havia o belo e o bom, o mundo era belo e bom, apesar da Guerra Fria, de escaramuças, apesar do anúncio ainda imperceptível do final dos anos dourados. Havia frescores de esperanças no ar: John e Jacqueline fazendo, da Casa Branca, como que uma nova Camelot, Elvis Presley, os Beatles que surgiam, a bossa nova, o Brasil bicampeão de futebol, promessas, promessas.

Então, o tiro, a bala que mudou o mundo. E o susto, o medo, a certeza de algo fundamental ter-se encerrado. A televisão demorava a mostrar os acontecimentos, uma tecnologia ainda incipiente. Eram filmes que chegavam com atrasos e aumentando ansiedades. Então, uma cena, na televisão, me estarreceu. Em meio ao que parecia a hecatombe, o mundo enlouquecido, o terror no ar, uma imagem na televisão: em plena tarde, um homem idoso, muito gordo, tomava cerveja na varanda de sua casa, placidamente olhando, apenas olhando a tragédia nas ruas. Como era possível — lembro-me de ter-me perguntado — alguém ficar tão alheado do restante da humanidade, tão sossegado, sentindo-se tão protegido, enquanto tudo ruía ao lado? Janeth — querendo ficar “de pés para o ar e comer pipoca” — permitiu que ressurgisse, em alguma gavetinha da memória, aquela imagem do homem gordo e impassível, na cadeira de balanço, tomando cerveja.

Ora, Janeth tem pleno direito de descansar, repousar, de viver seu frutuoso dolce far niente, uma jovem mulher que, para os esportes brasileiros, deu tudo de seus suores, sangue, lágrimas e trabalhos. O que estou querendo dizer é que sinto inveja de tal privilégio, de tal capacidade, esse sentimento de inércia, de paralisia, de quietude, de distanciamento. Gostaria de aprender como se faz, como é possível fazê-lo, acho que uma especial magia para paralisar pensamentos, emoções, reações, indignações, sei lá. Como se paralisa o cérebro? Como se criam mecanismos de alheamento diante do que acontece, da maldita bomba que decepou mãozinhas de crianças em Bagdá, da morte pela fome na África, dos roubos em Brasília, do pranto de mães, das tragédias aéreas, do sofrimento humano, desse insuportável sofrimento humano que inunda o mundo de lágrimas? Como não sentir, não se emocionar, como não se indignar? O torpor da alma é mais trágico do que a morte física.

Quero insistir, antes de costumeiros mal entendidos: Janeth merece ficar de pés para o ar e comer pipoca. Da mesma maneira como, certamente, aquele homem idoso e gorducho mereceu ficar na varanda tomando cerveja enquanto o mundo pegava fogo. O meu espanto é o de inveja, apenas isso. Pois, no meu tempo de contemplação, quero viver o êxtase de contemplar, mas a dor humana ainda me alcança onde quer que eu esteja. A paz e a serenidade não se alcançam se, num simples olhar, se depara com a lágrima do outro.

Na verdade, na verdade, a sabedoria deve estar com o Ascenso Ferreira: “Hora de comer, comer./Hora de dormir, dormir./Hora de descansar, descansar./Hora de trabalhar, pernas pro ar/que ninguém é de ferro!” Janeth, depois de tanto trabalhar e realizar, descobriu não ser de ferro. De pés para o ar, comendo pipoca, ela merece. E o Brasil agradece pelas alegrias que nos deu. E eu fico com inveja.

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