De repente, o I-Juca Pirama

picture (8)Pelo visto, começarei a traçar minha linha do tempo a partir de Olimpíadas, de Copas do Mundo, de bossa nova, coisas do arco- da -velha e da arca de Noé. Em sendo franco, rendo graças. E, enfim, entendo o I-Juca Pirama, do tão esquecido Gonçalves Dias, neste país de esquecidos. E, como o velho da taba, já posso dizer: “Meninos, eu vi.”

Até vou cantar os versos:

“Assim o Timbira, coberto de glória,

Guardava a memória

Do moço guerreiro, do velho Tupi.

E à noite nas tabas, se alguém duvidava

Do que ele contava,

Tornava prudente: “Meninos, eu vi!”.

Chegar à maturidade é, sim, sentir-se coberto de glórias, de medalhas da vida, essas cicatrizes da sobrevivência, a corrida de revezamento, da largada ao romper da fita final. Quem passa pelo tempo pode dizer como o velho Timbira: “Meninos, eu vi.” Sinto-me privilegiado por Deus pela oportunidade de rever, de olhar para trás, de ficar à margem da estrada, ainda deslumbrado com a jornada. Mas com a ansiedade e a expectativa, diante da vida, de um noivo à antiga à véspera da noite de núpcias. Admito, pois, a verdade agostiniana: nada há de tão antigo quanto o novo. Portanto,

“Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi:

Sou filho das selvas,

Nas selvas cresci;

(,,,)

Sou bravo, sou forte,

Sou filho do Norte;

Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi.

Já vi cruas brigas,

De tribos imigas,

E as duras fadigas

Da guerra provei;

(…) Meninos, ouvi.”

Acho que nem mais preciso de parêntese para explicar-me, pois até um extra-terrestre, por aqui caindo, haveria de contar, em voltando: : “Meninos, eu vi.” São tempos de euforia estranha, essa vaidade emergente brasileira de etanol, de pré-sal, de marolinhas diante da crise mundial. E tempos de estupidez, como essa lutar para sediar uma Olimpíada, já que a Copa do Mundo deverá mesmo acontecer nas terras das tribos tupi, aimoré e tapuia.

O I-Juca-Pirama me reapareceu de repente, como se rompendo uma crosta que mo bloqueava na alma. Não pensei nele, mas também não sabia que ele me estava guardado no coração. A alma humana é antiga. Alma brasileira não existe. Precisa aprender que é alma universal. O tapuia de hoje é o romano de ontem, o egipício de ante-ontem, o chinês de agora. Os Estados Unidos já estão vendo ruir o império. O Brasil precisa cuidar-se. O mundo não começa e nem termina conosco.

O I Juca Pirama já nos havia contado tudo. Basta reler, lembrar, aprender. Bom dia.

Deixe um comentário