De Sordi: do Bairro Alto a Campeão do Mundo

De SordiPara quem viveu aqueles anos – chamados, depois, de “dourados” – é impossível esquecer  tempos realmente mágicos. Pois foi como se todos os deuses, reunidos em uma refeição farta, tivessem resolvido semear belezas e encantos sobre a maior parte da humanidade. Os que acreditam em astros dizem, ainda agora, que todos eles se conjugaram para realizar verdadeiros milagres de encantamentos.

Tudo aconteceu ao mesmo tempo, surgindo aqui, despontando acolá. Numa única década, despontaram o Papa João XXIII, John Kennedy, Juscelino Kubitschek, Beatles, Bossa Nova. E o Brasil – com orgulho e esperança – saía de sua letargia, participando do banquete inexplicável mas real. Surgia Brasília; Maria Ester Bueno se tornava campeã mundial de tênis feminino; Eder Jofre, campeão mundial de boxe. E, no futebol, em 1958, o Brasil conquistava o nosso primeiro campeonato mundial de futebol. Piracicaba estava lá. Com De Sordi e Mazola.

Nascido no Bairro Alto – onde viveu toda sua adolescência e início da juventude – Newton De Sordi era um moço tímido, de porte físico ainda em formação, quase silencioso. Podia-se vê-lo no Bar Cruzeiro ou no Largo Santa Cruz. E, muito rapidamente, no Estádio da Rua Regente Feijó, já mais forte, com a camisa 2 do Nhô Quim, o lateral direito que encantava por seu poder de marcação e seriedade no esporte. Ao lado de Idiarte e Gatão, De Sordi era jóia rara de que os piracicabanos se orgulhavam. E haverão de se orgulhar sempre.

Enquanto De Sordi era levado embora pelo São Paulo, um outro piracicabano – de Vila Rezende e de apelido Cuíca – ia-se para o Palmeira, tornando-se famoso com o nome de Mazolla, também campeão do mundo na célebre seleção de 1958. Mazolla foi-se para a Itália; De Sordi continuou no Brasil, amado e querido pelas torcidas. E quem viu jamais se esquecerá da grande festa popular – talvez uma das maiores que já tivemos – quando De Sordi e Mazolla, já campeões mundiais, chegaram a Piracicaba num veículo do Corpo de Bombeiros, a multidão festejando, querendo tocá-los, como hoje se fazem com os grandes ídolos do mundo do espetáculo. Eles eram astros da época. Mas com humilde sedutora.

De Sordi – no gramado ou fora dele – tinha a postura de um centurião romano. Sua timidez pessoal dava-lhe um caráter de seriedade permanente. E cumprir a sua função de lateral direito era-lhe mais do que participar de um jogo de futebol: missão. Até hoje, quando passo pelo supermercado que ocupa o antigo estádio do XV, sinto tristeza. Naquele estádio, naquele chão – e voltei a escrever sobre isso – caíram sangue, suor e lágrimas de atletas que davam corpo e alma pelo “Nhô Quim”. Era o templo de nossos deuses pagãos. E De Sordi era um deles. Andar, pois, no chão daquele supermercado é o mesmo que ignorar e desrespeitar um solo realmente sagrado, para jogadores e amantes do futebol.

Deixando-nos, De Sordi não estará morto. Ele já se tornara imortal pela obra que realizou, pelo amor que dedicou a esta terra e ao Nhô Quim. Quando alguém continua fazendo parte da memória se torna memorável. De Sordi é memorável. Logo, nunca morrerá. Fica, apenas, uma indagação: morrer no ano do centenário do XV, isso é coincidência ou algo mais? Bom dia.

1 comentário

  1. Chico em 29/08/2013 às 09:03

    Belíssima homenagem caro amigo Cecílio. Precisamos manter sempre viva a memória dos filhos ilustres desta nossa cidade, pois eles dignificaram o nome da mesma.
    Um abraço e um bom dia para todos.

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