Debates e CQC

BrasilConfesso não entender a que levam os tais debates presidenciais na televisão. O script é previsível, como o de um velho filme já conhecido, um “déjà vu” monótono, desinteressante. Quem assistiu a um debate assistiu a todos. Nada se renova, nada se revela, a não ser papéis já decorados, artifícios repetidos, truques conhecidos. Antes de se dar a palavra a um dos debatedores, é possível prever: “Agora, ele vai falar sobre saúde.” Ou: “Ela vai trazer a questão do pré-sal”. Nada se esclarece por inteiro e, pelo menos em meu entender, é inútil esperara que se dissolvam dúvidas, que se clareiem indecisões.

Quando se chega aos últimos dias de uma campanha política, apenas verdadeiros terremotos eleitorais podem produzir alterações diante de quadros consolidados. O que mais há de se dizer contra Dilma e Lula? O que mais há se dizer a favor de Serra e dos tucanos? O Presidente Lula conseguiu o que se propôs desde o início: comparar os dois governos, o atual e o de Fernando Henrique. Mesmo com a aparição de Marina e seu conseqüente desaparecimento, nada se alterou, apenas adiando-se uma decisão final.

No Brasil, eleições são uma festa, um esporte, uma disputa apaixonada como a do futebol. Nunca, num jogo entre Palmeiras e Corinthians, o palmeirense verá mérito no seu adversário, nem o corintiano reconhecerá qualquer valor ao time palmeirense. A cegueira é a da paixão. Nas eleições atuais, a grande verdade é que o eleitorado não está votando e nem votará apenas a favor, mas, em especial, dará um voto contra. De um lado, a verdadeira paranóia contra Lula; de outro, o declarado horror a Fernando Henrique. Se Lula tivesse indicado outro ou outra, a reação seria a mesma. E os tucanos, insistindo com Serra, apenas apresentam o mesmo roteiro, o mesmo filme, as mesmas peças. Fosse um Aécio Neves – com sua simpatia esfuziante de namorador inveterado – o resultado, talvez, fosse outro.

O fato é que não se sabe qual pode ser a influência de debates presidenciais na decisão do eleitorado. Primeiro: a audiência é formada por pessoas interessadas em ver o desempenho de seus candidatos já escolhidos, sem qualquer “animus” de mudar de opinião. Vêem para torcer. Segundo: o horário não é adequado à grande massa trabalhadora, nem mesmo a indecisos por desinformação. Terceiro: os protagonistas não têm mais nada a dizer diferentemente do que já disseram.

Nesta campanha eleitoral, o resultado irá nos conduzir a reflexões ainda mais profundas, envolvendo, em especial, o papel e o desempenho dos meios de comunicação que, quase em bloco, optaram pela candidatura tucana. Poderá ter acontecido que jornais, revistas e emissoras de tevê falaram de si para si mesmos, pois, com a expansão da internet, são tantas as outras maneiras de se informar, a análise de blogueiros e de jornalistas independentes que a linha editorial, já conhecida, daqueles veículos pode ter produzido rejeições. Ora, não há jornal brasileiro, hoje, com circulação superior a 400 mil exemplares. Para o Brasil todo. E somos, hoje, quase 136 milhões de cidadãos que iremos às urnas. Quantos leram jornais, revistas ou assistiram a debates na tevê para decidir sobre em quem votar?

De minha parte, na última segunda-feira, foi-me fácil fazer a escolha: diversão por diversão, entre debate e CQC, fiquei com o CQC. Que está grosseiro mas, pelo menos, continua criativo. Bom dia.

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