Deputados e a Copa do Mundo

DeputadosPara os malandros, tornou-se tabu qualquer questionamento em relação à validade e importância da estrutura democrática brasileira. Para eles – como, também, para partidos políticos, bancos, grandes investidores – a democracia, tal como está, é o mais perfeito dos regimes e, por isso mesmo, contestá-lo seria um crime contra a liberdade. Trata-se, no entanto, de falácias convenientes à malandragem institucionalizada em todos os níveis da vida nacional. Em poucas palavras: a democracia brasileira é uma farsa. E está – para tantos que lutaram por ela no enfrentamento à ditadura – como um engodo que nos foi imposto para a preservação de privilégios e a continuidade das injustiças absurdas deste país.

Desde a implantação da República, por um golpe, o sonho democrático continua apenas sonho, pois não se pode falar em democracia real apenas pelo fato de haver eleições cíclicas e liberdade de ir e vir, mesmo porque as liberdades democráticas, no país, são questionáveis. O povo não escolhe: opta por este ou aquele já decidido por partidos políticos que disputam o poder a partir das mais sórdidas negociações e composições políticas. Um dos ideólogos da república brasileira, Saldanha Marinho, ao ver o que aconteceu nos primeiros tempos do novo regime, lamentou: “Esta não é a república dos meus sonhos.” Continuamos a repetir o mesmo lamento mais de um século depois.

Ora, tornou-se quase que crime de lesa pátria contestar-se a existência dos três poderes constitucionais, em especial, o Legislativo. Não se trata de negar-lhes a importância, mas de enfatizar a fragilidade da constituição deles, em especial o Legislativo. Pois está no ar a pergunta que se esparrama por todo o país, que escapa dos lábios indignados do povo brasileiro: para que servem o Legislativo, o Congresso Nacional, além desse palco de corrupção, de negociatas, e de privilégios inadmissíveis? Se deputados e senadores vão ou não às sessões, qual diferença isso está fazendo ao Brasil? Ou continua sendo verdade que o Brasil crescer à noite, quando os políticos dormem?

É uma bofetada na cara da nação essa proposta dos deputados federais em ampliar o chamado “recesso branco”, antecipando-o em 40 dias, por um motivo e uma razão quase que inverossímeis: para os ilustres e descarados deputados poderem assistir aos jogos da Copa do Mundo em suas casas, junto à sua gente. E os operários, serão liberados das fábricas; os trabalhadores terão férias remuneradas nesse período; os próprios empresários deixarão de trabalhar?

Os deputados estão zombando da paciência do povo e pretendendo transformar os eleitores em verdadeiros “gigolôs de políticos”. É preciso dizer, com todas as letras, que a democracia brasileira está sofrendo de um mal insanável e é preciso extirpá-lo: os nossos próprios representantes, que transformam as câmaras legislativas numa farsa e numa falsa demonstração de que este país vive uma democracia. Não, não vivemos democracia alguma. Estamos, ainda, num regime oligárquico, de coronelismo moderno, que ainda acredita poder continuar manipulando o povo com pão e circo. Com esse Congresso, os males da nação tendem apenas a aumentar. É preciso recomeçar tudo de novo e, então, reconstruir uma verdadeira democracia e não essa oclocracia, regime da gentalha, que aí está. Há que se criar um novo sistema de representação política, no qual políticos tenham consciência de que são servidores públicos e não profissionais especializados em mamar nas tetas gordas da nação.

Com toda a certeza, a revolta da opinião pública impedirá a aprovação de mais esse desatino de Brasília. No entanto, apenas a proposta indecente já foi bastante para nos mostrar, outra vez, que, na Câmara Federal, o povo está sendo visto como um simples joguete. Votar em branco ou anular voto está sendo, cada vez mais, uma opção séria e civicamente decente. Bom dia.

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