Descrença e instituições

DescrençaA discussão sobre pena de morte muitas vezes incendiou o país. Mas a verdade é que parece que vivemos em guerra civil há tempos e pouca gente percebe. Sair às ruas, à noite, passou a ser uma aventura. E, se fora de casa, as pessoas se sentem inseguras, dentro do próprio lar as janelas fechadas com grades, os mil cadeados nos portões são uma demonstração clara de que a insegurança continua a mesma. É um país em deterioração cada vez mais acelerada.

Quando a discussão gira em torno da pena de morte para crimes hediondos, pelas pesquisas de opinião em rádios, televisões, jornais, parece que a maioria esmagadora do povo já se define a favor. Isso é assustador. Comprova a consciência coletiva em relação à falência das instituições, incluindo a Justiça.

Lembro quando ouvi de um porteiro de hotel a opinião amarga, triste, cansada: “agora, o pessoal quer a pena de morte. É para matar o pobre, pois a cadeia só serve para recolher pobre. Com a pena de morte vai ser assim também.”

Isso significou que já passava a euforia popular em torno da busca de um bode expiatório, como foi, então, o caso do Collor. Quando o povão chegou a pensar que, sendo cassado o presidente, as coisas poderiam mudar.

E elas não mudam de uma hora para outra. E nem irão mudar se não se começar a mexer no conjunto todo. E vai ser difícil, pois a solução é política e, desgraçadamente, os políticos não merecem mais a confiança do povo.

Em uma outra pesquisa, que circulou certa vez dentro do Congresso Nacional: os políticos, em matéria de falta de respeito e de credibilidade, estão em último lugar. Abaixo das prostitutas, segundo pesquisa divulgada e comentada na imprensa.

Quando se chega a esse ponto, as previsões são negras. De minha parte, confesso que elas têm sido absolutamente pessimistas, há muitos anos, e, lamentavelmente, venho escrevendo sobre isso.

Aproximadamente no ano de 1990, lancei a minha última campanha jornalística, denunciando o tráfico de drogas e envolvendo os porões policiais. Para não dizer que não aconteceu nada, pois ninguém foi punido, ocorreu o que eu previra. O preso seria eu. Pois foi o que aconteceu. Fui absolvido em muitos processos. Mas fui condenado num deles: prisão por oito meses, direito a sursis por dois anos. Só que os traficantes continuaram soltos por aí. Ou seja, o bandido era eu. Há, então, um momento que se deixa de acreditar nas instituições. O meu já chegou.

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