Desistir, resistir, insistir

O jogo da vida ficou quase impossível de ser jogado. Houve um momento em que pareceu terem-se perdido as regras. Mas não foi assim. Na verdade, penso eu, houve mudança delas, de quase todas, num acordo silencioso e sutil, mas crescente. Viver tem sido o jogo dos espertos e dos malandros. A relação do lobo e do cordeiro transcendeu a fábula. É real. E o lobo tem vencido.

Nivelou-se por baixo. Na televisão, uma Cicarelli discute questões transcendentais com a autoridade antes devida a filósofos, mestres e sábios. Despreza-se até a autoridade universal de Bento XVI, tido e havido como “ultrapassado, moralista medieval, retrógrado”? Ele seria, certamente, um fracasso como animador de programas de auditório. Concorrendo com Faustão, Hebe, Gugu, ele não teria audiência falando de moral ocidental, em valores, advertindo contra a sexualidade desbragada.

Alguém tem que ir na contramão. Apontar outros caminhos. Advertir a respeito de erros históricos que cometemos, os da falência das instituições e de civilizações – não por mudanças de valores, mas por perda de princípios. A luz na escuridão, a voz no deserto, as setas na encruzilhada, estas, ainda – como sempre, na história humana – hão de vir dos místicos, dos profetas, dos artistas, das lideranças espirituais.

Pensemos em Gandhi – que rememorei antes da posse do atual prefeito de Piracicaba – com sua a proposta ética diante, já em seu tempo, da desigualdade social, da corrupção endêmica, da exploração econômica mundial. O Mahatma apontou os pecados sociais que violentam a humanidade e que ainda persistem: “política sem princípios; negócios sem moral; riqueza sem trabalho; educação sem caráter; ciência sem humanidade; prazer sem consciência; religião sem sacrifício”.

As regras mudaram: sai a decência, entra a sordidez; sai a honestidade, entra a trapaça; sai a solidariedade, entra o individualismo; sai a lealdade, entra a esperteza; sai a família, entram as uniões rápidas, passageiras, descompromissadas e superficiais. E, aos poucos, desmorona a pirâmide mural e cultural do Ocidente, dando lugar apenas à moral e à cultura do espetáculo.

Vejam a Unimep, destruída por homens que transformaram a virtuosa Igreja Metodista de até anos recentes em mais uma “igreja de resultados”, como foi definida a sua congênere, a Universal, pelo “The New York Times”. A Unimep de Davi Barros é testemunho vivo desse abalo em princípios, de regras do jogo alteradas, de valores substituídos. Também ela foi instrumentalizada por seitas e falsos profetas, que tangem o povo como se fosse gado. É hora de desistir de tolices e de recusar submissões, retomando a verdadeira dignidade de viver. Quando não se agüenta mais, urge a decisão. Quem aceitar ser gado que o faça sozinho.

Desistindo de mediocridades, insisto no ideal. A urgência é de náufrago. A última estação se aproxima e não sou maluco para viver o final do percurso sem bússola, régua e compasso. E sem esquadro. Quem é tolo de, na escuridão, caminhar sem, pelo menos, uma lamparina? Ou, no deserto, sem a estrela guia?

Esvaziar o coração do divino e do sagrado é desumanizar-se. A profanação da Unimep, a vulgarização da Igreja Metodista são o trágico testemunho da sabedoria da reflexão romana: “Corruptio optimi péssima”, é péssima a corrupção do ótimo. Resistir e insistir, eis a alternativa. E bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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