Deturpações históricas

A reação contra a proposta equivocada do vereador Capitão Gomes, de dar nome ao Salão de Humor, foi imediata nos círculos que conhecem a verdadeira história de sua criação. Do fato, no entanto, há que se tirar o lado positivo, que é o da preocupação com outras deturpações históricas que vem ocorrendo em nossa cidade. Um de nossos leitores, o historiador Eduardo Gabriel, lembrou, com toda a razão e como pesquisador, de erros históricos que assumiram foros de verdadeiros, pelo menos em versões oficiais em Piracicaba.

A súperficialidade com que se trata de questões sérias é a primeira responsável, seguida da ignorância, por essas deturpações que comprometem a grande história piracicabana. No início da atual administração, por exemplo, a então Secretária da Educação – com o apoio do prefeito, um conhecedor dos caminhos das pedras quanto a verbas oficiais – contou com verba do Fundeb, hoje, Fundef, para produzir um livro de história que, distribuído a escolas, é um monumento tosco de arranjos e jeitinhos. Além, infelizmente, do crime de plágio pelo qual a ex-secretária já foi condenada em primeira instância.

Piracicaba, infelizmente, distanciou-se de uma das suas mais sérias e responsáveis instituições, o Instituto Histórico e Geográfico, que é, certamente, o principal guardião de nossa história. Quando, cá em A PROVÍNCIA, damos de todos os esforços para garantir, aos piracicabanos, a preservação da alma piracicabana, o fazemos com o resguardo e a autoridade moral do IHGP, com seus livros, documentos, obras, registros que, quase desesperadamente, a diretoria da instituição tenta preservar.

Cidade sem memória é cidade morta. E cidade com história falseada e inventada é cidade artificial, que se machuca a si mesma e que, por fazê-lo tantas e repetidas vezes, poderá morrer por intoxicação de mentiras e de falsidades. A Câmara de Vereadores de Piracicaba – que teve, desde o Império, homens ilustres, nossos pais da cidadania – tem uma responsabilidade especial, pois, além de seus arquivos, faz história no cotidiano, com leis, projetos, criações. Por isso, é condenável e absurda a banalização que vereadores fazem desse passado e dessa história quando concedem títulos e dão nomes a vias públicas a partir de um critério ainda mais condenável, que é a falta de critério. E mais lastimável e desagregador ainda, quando o critério, como tem ocorrido, é de interesse político-eleitoral.

Poucas cidades, como Piracicaba, têm fontes históricas ainda vivas, preservadas, íntegras, ainda que muito já se tenha perdido e muito, também, comece a se adulterar. Um exemplo amargo, entre tantos outros, é, por exemplo, a referência ao “Véu da Noiva”. Até publicações oficiais, patrocinadas pela Prefeitura, já identificaram a queda d´água, ao lado do Mirante, como “o Véu da Noiva”. Além de não o ser, trata-se de uma agressão à memória e à dignidade de Brazílio Machado, que criou o epíteto “Noiva da Colina” no poema Piracicaba – publicado em 1º de janeiro de 1886, na antiga “Gazeta de Piracicaba” – criando a imagem do véu. Não se trata de cachoeira, mas de versos; não da água, mas da bruma do céu:

“Sacode os ombros nus, ó Noiva da Colina,

Que a luz da madrugada encheu o largo céu.

E arranca-te das mãos o manto da neblina,

Que ondula sobre o rio, enorme e solto véu…”

Piracicaba, as futuras gerações, a história somente têm a ganhar se até mesmo as jovens faculdades e universidades aqui instaladas tivessem a humildade de consultar os arquivos do IHGP para promover publicações algumas das quais eivadas de falhas e equívocos notórios. E a Câmara de Vereadores, por que não apela ao IHGP para tomar iniciativas até mesmo em homenagens, das muitas equivocadas que costuma promover? São vereadores moços, alguns sem qualquer conhecimento histórico, outros oriundos de outras localidades. Por que, para evitar distorções e erros, não se socorrem de informações idôneas e responsáveis? Mata-se a história distorcendo-a. E bom dia.

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