Deus S.A.

S.ANada entendo de economia e, portanto, qualquer opinião minha a respeito não passará de besteira. No entanto, há coisas, na vida, que se entende por intuição, talvez por experiência, por prática, sei lá. Uma das mais perfeitas lições de economia, aliás, que conheci, foi o de uma velha cozinheira de minha família que revelava o grande segredo: “não gasto mais do que ganho e sempre economizo um pouquinho para alguma emergência.”

Isso posto, minha ignorância econômica não me impede de intuir que uma das mais rentáveis, poderosas e crescentes empresas brasileiras – algumas delas já se tornando até mesmo multinacionais – são a indústria e o comércio da fé. Nem sei bem como isso funciona, mas parece que tem havido até mesmo o sistema de franquias, o tal do “franchising”. Basta uma portinhola de garagem, autorização sei lá de quem, a denominação da igreja, o título de pastor e lá está em plena atividade a empresa da fé. Creio haver uma instituição econômica de nível superior, uma certa Deus S.A., supervisionando as relações comerciais de fé entre pastores e fiéis. Mas algo existe e está acima de leis, de normas sociais, de regras, tudo em nome da liberdade religiosa que, aliás, aboliu até o velho e antigamente reprimido charlatanismo. Em nome da liberdade religiosa, aboliu-se a lei.

O formidável nessa empresa é que não há necessidade de entregar o produto, pois, quase sempre, a entrega é depois da morte. Vende-se um lugarzinho no céu a prestações mensais que variam conforme a generosidade ou a produtividade do contratante. Não há PROCON para reclamações e nem mesmo serviços de atendimento ao consumidor que comprovem a qualidade dos serviços prestados. Pela televisão, por exemplo, vêem-se pastores anunciando milagres em grupos, como aquela multiplicação de pães e peixes que se atribuem a Jesus, uma história oral sem comprovação documental. Tem gente que aparece dando graças por ter sido curada de câncer na bexiga, outro de câncer no cérebro, alguns agraciados com milagres que os fizeram voltar a andar, a enxergar, um verdadeiro festival de milagres que, pelo visto, provam que Jesus retornou à Terra, incorporado em pastores e pastoras, tempos de prosperidade que melhoram quanto mais polpudos forem os dízimos.

Não existe, nessa indústria da fé ou nessa sociedade anônima de Deus, previsão de delitos como ludibriar a ingenuidade pública, charlatanismo, dolo, estelionato moral, não há infrações. E os templos de portas de garagem se multiplicam em proporção realmente alentadora para os novos investidores. Até eu, que nada entendo de economia, percebo que se trata de um grande e formidável negócio. Especialmente agora, quando surgiu a tal teologia da prosperidade que se resume numa orientação bem prática: “Deus quer que você seja rico, bastando ser generoso para com ele. Pague bem e receba multiplicado o seu investimento.”

Essa indústria está tendo grande sucesso entre os jovens jogadores de futebol, jovens esportistas e estrelas de tevê, teatro, cinema, moda e entretenimentos. O jogador Kaká viu tornado público o dízimo que pagou a uma dessas seitas cujos pastores, aliás, estavam presos nos Estados Unidos: 200 mil reais. E o ainda não ungido novo rei do futebol brasileiro, o Neimar – craque privilegiadíssimo, mas com arrogância de imperador – acaba de informar que paga, a Deus S.A., uma contribuição, a título de dízimo, de 40 mil reais mensais. Em troca, ele está querendo adquirir, para guardar na sua garagem, dois automóveis principescos: Porshe e Ferrari. Quando isso acontecer, e não deve demorar, o pastor da empresa da fé a que ele está filiado irá rejubilar-se com um dízimo que pode chegar – por que não? – a uns 200 mil reais mensais.

Mas o fato é que ninguém, pessoalmente, tem nada a ver com isso. A não ser autoridades fiscais, policiais, ministério público que bem poderiam apurar o que anda acontecendo com coisas como lavagem de dinheiro, evasão fiscal, charlatanismo, essas realidades que existem em outros ramo, com exceção com os das empresas de Deus. Que cada um gaste seu dinheiro como quiser, eis aí um questão democrática, que pode ser legal mas nem sempre moral, quando se sabe que, no mundo, já há um bilhão de famintos. Esse Deus S.A. é injusto: dá tudo para quem pode pagar muito e nem dá migalhas aos miseráveis e famintos. É o Deus neoliberal.

A única certeza, nisso tudo, é que, quando a esmola é demais, até o santo desconfia. E o mesmo com a exploração dos negócios de Deus. A maior revolução da história humana nos últimos séculos se deu quando um certo Lutero resolveu brigar contra o comércio da Igreja em relação às indulgências. O mundo mudou. Agora, piorou de novo. Mas, para quem acredita em eterno retorno, uma nova mudança será inevitável. Pois até o santo já está desconfiando dessa empresa Deus S.A, com seus pastores milionários e bem-aventurados. Se não é verdade que os pobres herdarão a Terra, é verdadeiro que os famintos derrubam Bastilhas. Está próximo. Bom dia.

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