Dia da Lembrança e miosótis

picture (20)A iniciativa da Câmara de Vereadores, em acolhendo a sugestão do empresário Jayme Rosenthal no sentido de criar o Dia da Lembrança em Piracicaba – revelou sensibilidade dos srs. Vereadores. E, por isso mesmo, talvez devesse merecer uma reflexão maior para seus objetivos e efeitos estenderem-se a setores ainda mais amplos da sociedade.

O Dia da Lembrança, sugerido por Jayme Rosenthal, destina-se a impedir seja esquecido o holocausto judeu durante a II Guerra Mundial, um dos mais dolorosos genocídios de toda a história, pois outros hoje e ainda acontecem. Jayme Rosenthal é personalidade das mais queridas e respeitadas em Piracicaba por sua participação na comunidade, por seu espírito de comunhão e generosidade de alma. Quando Rosenthal propõe o Dia da Lembrança, é preciso que nos lembremos do testemunho de fraternidade que, em Piracicaba, ele e o falecido Ibrahim Daibes deram em tempos de ranços antigos, quando o mundo, no pós-guerra, vivia o drama também da guerra fria. Eram dois amigos fraternos de ascendência oriental que se uniam: o judeu, Jayme, e o árabe, Ibrahim, formando parcerias sociais, empresariais, vivendo fraternidades exemplares. Por seu testemunho de vida, Jayme e Ibrahim sempre puderam – e Jayme ainda pode – falar de humanismo, de confraternização, de fraternidade. A Câmara de Vereadores, pois, foi feliz e mostrou sensibilidade em criar esse Dia da Lembrança, a se comemorar em cada dia 30 de abril.

Por que, vai daí, não criarmos, também em Piracicaba, comemorações e movimentos ainda mais amplos, acima de raças, acima e além de etnias, de origens, de ascendências, de cor de pele, de religião, de diferenças políticas? Não há segmento social que, de uma ou outra forma, uns mais e outros menos, não tivesse sofrido por ranços e ódios alheios, incluindo os de ordem política. Um Semana da Lembrança – por que não? – para Piracicaba dar testemunho, ao Brasil e ao mundo, de que voltou a se preocupar com e a se ocupar de humanismos, de diferenças, de violações de direitos, de preconceitos estúpidos e de diferenciações odiosas.

Piracicaba teve, sim, no passado – e tem resquícios ainda muito fortes disso – uma história de preconceitos que não alcançou apenas os negros, mulatos ou israelitas, mas que atingiu imigrantes europeus e asiáticos, que discriminou judeus, protestantes, espíritas, maçons. Quando, nas primeiras grandes levas migratórias, aqui aportaram italianos e alemães, eles foram discriminados, assim como japoneses, árabes, espanhóis, entre outros. Era comum ouvir-se falar de “italianinho sujo”, “turquinho ladrão”, “espanholzinho à toa”, “japonês traidor”, “judeu sem vergonha”. Protestantes não podiam ser enterrados em cemitérios católicos e da comunidade; alemães foram restringidos a morar em bairros então distantes, como sobrou a lembrança do “Bairro dos Alemães”, no Bairro Alto.

Quando se criou, também em Piracicaba, o Dia da Consciência Negra – tendo Zumbi como patrono – discordamos da iniciativa e que se fizesse, da data, dia de feriado. Pois nos parecia, como ainda parece, algo discriminatório, excludente. Ora, se houve uma consciência negra, haverá, também, uma consciência branca, outra amarela, referindo-se a conceitos superados de raça. A consciência há que ser formada como dom e possibilidade humanas, de onde se transforma em consciência universal. E é essa consciência universal que permite se crie um Dia da Lembrança, para nunca mais se repetir o holocausto judeu, da mesma forma como deveremos ter a lembrança permanente de que jamais se repitam formas de escravidão ou de sujeição, seja pela cor da pele como também por posições políticas, religião e comportamento.

Há uma herança, em Piracicaba, deixada pelos Moraes Barros que, lamentavelmente, tem sido colocada em segundo plano. Tanto assim é que a Prefeitura, pela atual administração, perdeu oportunidade de ouro para, consolidando o Museu da República – o Memorial de Prudente de Moraes – que USP, Unicamp, UNIMEP propuseram no governo de José Machado, transformar Piracicaba em cidade-símbolo do mais altivo republicanismo, sinônimo de liberdades verdadeiramente, e não ficticiamente, democráticas, com símbolos e referenciais de dignidade, de honradez e de brasilidade.

Que esse Dia da Lembrança, para não nos esquecermos do holocausto do povo judeu, nos sirva de estímulo para ampliarmos o leque em defesa de todos os direitos humanos, radicalmente contra preconceitos e contra exclusões. A PROVÍNCIA assumiu, como responsabilidade também nossa, manter viva a memória, manter vivas lembranças piracicabanas, pois Memória é, na sua origem grega, aquilo que permanece, que resiste, que enfrenta bravamente para não desaparecer. Estar na lembrança é estar na memória. Não podemos, pois, esquecer. Como o miosótis que, para ingleses, tem o nome de “não se esqueça de mim.” Bom dia.

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