Dia do Professor, templo e balcão

picture.aspxNum Dia do Professor, há poucos anos, senti-me privilegiado e envaidecido. Ora, vaidades, grandes ou pequenas, tolas ou justificadas, vaidades, elas existem. E – em tempos de equívocos e perplexidades – deve sentir-se privilegiado aquele quem viver vaidades na dimensão do afeto, da amizade, do respeito. Envaideço-me de, ainda, perceber tantas belezas, de cercar-me delas – e me entristeço por saber tenham fim também as doçuras d´alma. Viver é perder, sei disso. Enquanto ainda esplêndidas, tolos serão os que não as saboreiem, todas e cada gota das doçuras. E agradecidos aos que no-las dão.

Envaideci-me e muito, naquela noite, quando amigos do cientista Eurípedes Malavolta convidaram-se para saudá-lo-lo ao lhe ser outorgado o título de Cidadão Piracicabano, que ele é infinitamente mais do que muitos aqui nascidos. Mais do que aqui nascido, Malavolta e muitos outros são aqui co-nascidos. E escrevo de co-nascer, invejo do jogo de palavras dos franceses com os verbos “naître” e “connaître” , nascer, conhecer. Ora, nós apenas co-nhecemos, co-nascendo.

Penso naquela noite memorável por, no Salão Nobre da ESALQ, ter estado ao lado de sábios de nossa terra, dando graças por a vida ter-me permitido estar próximo deles, de te-los co-nhecido ao longo da vida e, portanto, ter direito à esperança de co-nascer ao lado deeles. Naquele noite, senti bafejos de sabedoria de de anciãos da tribo, de guardiães do tesouro, um ritual litúrgico. Vi, pela última vez, o venerando e quase centenário Walter Accorsi, como que abençoando a sagração de Malavolta.

Foi como uma assembléia de sábios, acólitos do grande pajé, professores e mestres em comunhão. A sutileza da linguagem me perturbou, num tempo já conturbado: há mestres e há professores. E mestres que são aprofessores e professores que se tornam mestres. Ou havia?

Em mais um “Dia do Professor” – recordando-me de quando era possível banhar-se em águas lustrais da sabedoria tribal – penso, agora, na triste destruição do templo: universidades, escolas em frangalhos. Em especial, a ruína da escola primeira, a da infância. A simples edificações dá-se o nome de “estabelecimentos de ensino”. São lugares apenas de ensino ou onde, também, se ensina e se educa? De professores mal remunerados, desprestigiados, poderemos esperar surjam mestres, poucos que sobrevivam? E não me refiro a mestres apenas por seus diplomas de mestrado. Nem a doutores apenas por seus doutorados. Mas, também, por serem doutos e mestres na formação de homens. Refiro-me, talvez, a mestres-escolas, à mestra, ao mestre, reveladores dos primeiros caminhos, iniciadores,sendo pilares nas universidades.

E quero, hoje, referir-me em especial aos mestres e professores da Unimep que lutam para impedir a derrocada da Universidade, agora claramente transformada num balcão de negócios, com uma direção geral que não tem escrúpulos em negociar abatimentos de mensalidades como se fosse uma questão comercial. Convênios comerciais da Unimep para descontos especiais de matrículas, inscrições e mensalidades são um insulto à dignidade da universidade. Se os metodistas perderam a dimensão da sacralidade da instituição, Piracicaba há que louvar, hoje, professores e mestres da Unimep que lutam em defesa de um patrimônio sagrado. O dirtor geral jamais entenderia uma solenidade como aquela que houve e as que tem havido em universidades verdadeiras.

Diante de professores, há respeito. Diante de mestres, há – além do respeito – a reverência. Professores e mestres da Unimep estão lutando para manter a nobreza da instituição, a serenidade reverencial do tempo, o brilho de eternidade. Que Deus lhes dê forças para impedir que os mercadores – numa farsa bíblica – conspurquem o templo. Do qual, aliás, foram expulsos. Bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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