Ditadura paroquial 45 anos depois

picture (18)No próximo 31 de março, o golpe militar de 1964 completará 45 anos. A poeira ainda não baixou de todo, pois aí ainda estão figuras como José Sarney para não nos deixar esquecer. Não se cicatrizaram feridas e nem silenciadas estão vozes de tantas vítimas. Nestes anos, porém, o Brasil coalhou-se de heróis de fancaria, muitos deles tentando transformar a farsa quixotesca em epopéia homérica. Há heróis demais e omissos de menos; falantes em excesso e provas esquecidas. Ou escondidas.

Propus-me escrever alguns artigos a respeito da repercussão – no que vi, ouvi, participei, testemunhei – do golpe em Piracicaba. O vendaval apanhara-me no vigor de meus 23 anos de idade, recém-casado, diretor da “Folha de Piracicaba”, mal saído do Partido Comunista, formando-me em Direito. Os meus eram idealismos deslumbrados e desejos heróicos suicidas. O destino – se existe – permitiu-me ser, ao mesmo tempo, ator e espectador, testemunha e réu, estilingue e vidraça.

Eu ia escrever. Desisti. Acho já ter falado e contado tudo. Ou quase. Minha versão pessoal eu já a dei em jornais e livros, pois mesmo participantes e testemunhas vêem e ouvem a partir de óptica e ótica próprias, conforme seus referenciais. Desisti e explico-me: o silêncio e a timidez de Piracicaba, 45 anos após o golpe, doem-me. É como se, ainda, houvesse interessados em cobrir a história com invenções, mantendo ocultos fatos e acontecimentos que desnudariam falsos heróis, reabilitando a memória de gente humilde massacrada.

Finge-se ignorar – e isso torna a história capenga – como o golpe produziu tiranetes em cidades interioranas. Relembrar a pusilanimidade acovarda. Debruçar-se sobre isso é ver o horror por outro prisma, talvez ainda pior por desenrolar-se, a tragédia, em cenário menor. Em Piracicaba, o golpe de 1964 despertou, em políticos, a “vendetta” própria de máfias que se escondem sob o nome ora de “coronelismos” ora de “oligarquias”. Instalou-se uma ditadura paroquial, com ódios provincianos, perseguições e vinganças interesseiras, oportunismos insuportáveis.

Os ódios e os ranços mostravam-se claros e definidos em 1964. Eram um prefeito, quatro deputados – dois estaduais, dois federais – amavelmente detestando-se uns aos outros: Luciano Guidotti, Domingos Aldrovandi, Salgot Castillon, Pacheco e Chaves, Lino Morganti. E uniam-se quando ameaçados. Sindicatos agitavam-se ao léu, patrões inquietavam-se, vereadores matraqueavam. E o povo pedia: fora Jango! Como em todo o Brasil, conta-nos Cony.

Quando Jango caiu, Piracicaba exultou, sem imaginar estivessem abertas as portas do inferno. Cada líder local tornou-se o demônio do outro, atiçando a fogueira dos ódios paroquiais. E fizeram vítimas, a partir dos mais fracos e desafetos: operários, estudantes, intelectuais, jornalistas. Apenas quando se deram conta de a ditadura ser de verdade e não brinquedo paroquial, o medo uniu adversários. A partir daí, Piracicaba fez-se um lugar de resistência.

Há 45 anos, a Igreja – a cripta da Catedral feito catacumba – acolheu estudantes e operários perseguidos, sob a proteção e o comando desse homem que jamais deveria ser esquecido, D.Aníger Melilo. A Câmara foi violentada. A ECA, semente da UNIMEP, rebelou-se. O CALQ ergueu-se, apesar da placidez olímpica de alguns professores. Os sindicatos desmoronaram. A imprensa que reagiu foi pressionada.

O silêncio e a timidez de agora são estranhos. Pois lembram o ambiente onde, há 50 anos, se chocou o ovo da serpente. Era o ambiente da corrupção consentida, do desânimo para a luta, de aceitar que prefeitos, governadores, políticos fizessem grandes negócios e negociatas a partir de seus cargos. O perigo permanece. Em vez de silenciar, seria preciso lembrar cada vez mais. Pois a serpente muda a pele e renasce. As novas gerações têm o direito de saber melhor. Bom dia.

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