Doces livros, pobres livros

Na Feira de Frankfurt, livreiros de todo o mundo marcaram até data para a morte do livro de papel: 2018. Recuso-me a acreditar. Mas, dentro de mim, devagarinho, já se instalou um sentimento de perda, de desconsolo. Já sinto coisas mortas, um mundo que começa a morrer lentamente, esse mundo em que vivemos até agora. Mundos morrem, por que não nos lembramos disso? Cadê os quintais, cadê a seresta, cadê a namorada por trás da janela, cadê o piquenique, cadê o cavalheirismo do homem, a faceirice da mulher? Mundos morrem.

No entanto, não consigo imaginar-me num mundo sem livros. Como viver sem a própria alma? Vivo com eles, entre eles, não sei fazer outra coisa a não ser ler e escrever. Meus dias, quase todas as horas deles eu as passo na minha biblioteca, como se fosse a minha única morada. E, agora, quanto mais olho os meus livros, as prateleiras cheias, títulos amontoados, sinto-me numa UTI diante de um doente querido em estado terminal. No fundo de mim, sei que eles estão morrendo, que sobrarão como testemunhos de um tempo que se vai acabando, substituídos que serão por livros e bibliotecas eletrônicas. Sei disso, mas não consigo superar esse sentimento de perda, de agonia. Como poderei viver sem meus livros? Ou morrerei junto com eles?

Desde pequenino, apaixonei-me por livros. Eram os do meu pai, de minhas irmãs. Decidi que iria ter os meus, apenas meus, minha própria biblioteca. Sei, até hoje, quando comecei minha coleção. Foi no dia 24 de junho de 1950. Era meu aniversário de 10 anos e um coleguinha muito querido, o Sérgio Braz Grisolia, me trouxe um livro que sua mãe, dona Filomena, comprara para ele me dar de presente. Era “Helena”, de Machado de Assis. Quase enlouqueci de alegria e dormi com o livro ao lado do travesseiro. Era o primeiro de minha coleção.

Confesso uma angústia que me aperta o coração, quase uma agonia. Sempre disse a meus médicos que tudo o mais meu e de mim não me importaria, desde que eu mantivesse olhos de ler e dedos de escrever. São cerca de 12 mil exemplares, entre livros e revistas. Até bem pouco tempo, antes de a moça começar a catalogá-los, tirando-os de uma estante, passando para outras, eu sabia localizar um por um, um a um. Bastava alguém citar um livro e eu descrevia o lugar onde estava, a cor da capa, em qual estante. Agora, tudo se misturou, mas, como pai orgulhoso, tenho a alegria de saber que folheei cada um deles, como quem afaga o filhinho pequenino. Como admitir que ninguém venha a se interessar por obras que, de sebo em sebo, cacei ao longo da vida? Tenho um dicionário latino, o Magnum Lexicum, de 1863. Quando o consulto, faço-o como quem toca em coisa santa. Como pensar que, algum dia, poderá ser jogado no lixo, coisa velha, superada, inútil?

Vi como funciona o “kindle”, essa maquininha que pode reunir até 1.500 livros eletrônicos. É formidável, uma conquista tecnológica extraordinária. Mas não é para mim. Posso até, em mais alguns anos e se eu sobreviver a essa estouro de boiada, ter meu “kindle”. Mas não será verdadeiro, real, palpável como o livro de papel. Livro é como mulher, sinto-o eu. Tem que ser de verdade, sem silicone, sem coisas artificiais, com cheio próprio, sabor singular. Como é possível viver com mulher de plástico? Como será possível viver sem livros de papel? Mundo sem graça. Bom dia.

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