Domesticando gente

Domesticando genteDepois que a vida se lhe alongou, a grande graça, para um homem, é ficar à margem da estrada olhando a multidão passar, esse ir e vir, o buscar e o retornar. Quando já se conhece o caminho, não adianta dizer, ao incauto, que lá, mais à frente, há um precipício, que ele não acreditará. Terá que ver por si próprio e, depois, retornar. À beira da estrada, o homem – que já foi e voltou – apenas olha e medita. E toma consciência cada vez maior da estupidez do ser humano, que perde as suas mais generosas energias em tolices que a nada levam. Aprender por si mesmo, no entanto, é preciso. Mesmo à custa de tombos, ferimentos, cicatrizes e estupefações.

À margem, pois, assisto aos debates sobre a tal lei municipal que proíbe agressões a animais domésticos, algo que pensei já estivesse absolutamente claro para os cidadãos civilizados. Acontece que a lei é de tal forma capenga ou apenas marcada pela miopia de fanatismos que entrou no terreno do sagrado e, a partir disso, não há mais diálogo, nem entendimento, nem qualquer possibilidade de acordo. E o rito sacrificial de animais, como fica? E as galinhas, perus, porquinhos, leitões, cabritos nos pequeninos sítios, que se transformam em refinados alimentos na mesa de quase todos, ricos ou pobres?

Com tantos e tão graves problemas no mundo, não consigo entender como se perca tempo com questões já resolvidas, que são parte do consenso da coletividade. Ora, se alguém espancar cães, gatos, animaizinhos domésticos, é evidente que deverá ser punido. No entanto, há questões que envolvem o sagrado de pessoas e instituições que não podem, com uma simples penada, ser removidas do imaginário e da cultura dos povos, de milenares que são. Tratar os ritos sacrificiais como simples brutalidade ou barbárie é, na verdade e me desculpem quem se magoar, de uma estupidez ontológica. A humanidade está marcada por ritualismos ancestrais e o estudo deles nos revela o que há de mais profundo em nós mesmos.

Há gente mexendo em vespeiro. Que é muito mais intenso do que parece. Não se trata, apenas, dos ritos sacrificiais de umbandistas e do candomblé. São ritos imemoriais que acompanham o inconsciente coletivo, que estão na raiz da humanidade. O Cristianismo – em nome do qual se cometem tantos e mais horrendo crimes – é sacrificial desde a sua origem. Abraão ofereceu Isaac em sacrifício ao seu Deus. E o que foi a crucificação e morte de Cristo, senão um rito sacrificial pela humanidade, o Pai deixando o Filho morrer na Cruz para “salvar a humanidade”? A saga humana é imemorial e a civilização apenas deu novas formas a marcas indeléveis.

Devotos de umbanda e candomblé repetem, com seus sacrifícios e oferendas, o que o próprio deus Mitra fazia no início dos tempos, oferecendo o touro como sacrifício em louvor aos céus. Na origem dos tempos – e busque-se a interpretação em Jung – o sacrifício era o símbolo da vitória da natureza espiritual do homem sobre a sua própria animalidade. Mas isso seria demais para ser discutido em um debate camarário, não é verdade?

O fato é que, acima de tudo, a preocupação deveria ser outra, pelo menos em meu entender: há que se domesticar o homem, de transforma-lo, novamente, num animal doméstico, cumpridor de regras, respeitador da ordem. E se entenda a palavra doméstico como um ser do “domus”, que é o lar, a casa. Domesticar o homem novamente é o grande desafio de nossos tempos. Por outro lado, imiscuir-se superficialmente no terreno do sagrado pode nos levar a situações constrangedoras e perigosas. Pois quem nos garante que, daqui a pouco, não surgirá um vereador querendo proibir a missa católica porque, nela, há – na celebração eucarística – a morte de Jesus Cristo, sua transubstanciação, o pão tornando – se carne, o vinho transformando-se em sangue? É um sacrifício humano, sim. E, na missa, quando o católico comunga não deixa, na verdade, de estar se alimentando da carne e do sangue de um homem e do filho de Deus. Se isso não é antropofagia ou teofagia, não entendo mais nada. Mas, na verdade, é por isso que escolhi ficar à margem da estrada. Bom dia.

Deixe um comentário