E a camisinha?

Sem camisinhaNão fosse trágico, seria cômico. Parodiando o presidente Lula, “nunca antes, no Brasil”, se viu campanha eleitoral tão patética e esquálida, como se estivéssemos para decidir quem será o presidente de um time de futebol ou de uma associação religiosa. De repente, o fanatismo fundamentalista tomou conta do país e é nos atira em direção a uma teocracia cristã das mais xinfrins, pois sem qualquer estrutura filosófica, ideológica, política. Os fanáticos querem a teocracia, o “Brasil para Jesus”, e nada mais conseguem discutir pois a fé irracional cega e entorpece.

Depois de ter sido plantada estúpida e tolamente a questão do aborto na campanha eleitoral, outras questões, envolvendo fundo moral e de preconceito, começam a surgir, como a autorização para a união civil entre gays, que eles chamam de casamento. Ora, casamento tem fundamentação religiosa e haveria uma profunda confusão – e contradição absurda – discutir-se, ao mesmo tempo, o aborto e a relação gay. O que pretendem os fanáticos, um país de aiatolás ou um país de católicos fanatizados e dirigidos por bispos de mentalidade medieval, um país sob controle de malandros de seitas que usam do evangelho para enriquecer? Religião, mais do que questão política, começa a se tornar caso de polícia.

Faltam poucos dias para o encerramento da campanha e o dia da eleição em segundo turno. Mas há tempo, ainda, para os malucos do fanatismo apresentarem as suas talvez últimas indagações aos candidatos, avaliando a competência e a capacidade deles para governar o país. Para Dilma, haverá quem deseje perguntar o que, por exemplo, ela acha do uso da camisinha, do controle da natalidade, da virgindade das moças. E, para Serra, a preferência dele em relação as 77 posições do Kama Sutra, mesmo que ele, talvez, não as conheça. Aliás, não há necessidade de conhecer nada para opinar sobre tudo.

Em outro espaço jornalístico, escrevi, sobre o mesmo assunto, algumas considerações em relação a uma realidade que tem passado desapercebida a políticos, ao povo e até mesmo a analistas. A Igreja Católica, além de um manancial de fé duas vezes milenar, criou uma genial arquitetura e notável engenharia digamos que religioso-política. Assim, ela é, ao mesmo tempo, uma igreja – dizendo-se a única verdadeira, como sucessora de Jesus Cristo – e um Estado. Dessa forma, o Papa é reconhecido como líder espiritual e chefe de Estado. Como líder espiritual, ele se arroga o direito de falar “urbi et orbi”. E, como Chefe de Estado, ele é recebido como governante político em todas as nações que o reconhecem como tal. Ora ele se apresenta como líder espiritual, ora como chefe de Estado. São duas facetas que tornam suas relações internacionais notavelmente adequadas para cada situação.

O que estou querendo dizer, no entanto, é que, como um Estado, o Vaticano não deveria permitir que seus representantes nos demais países – núncios apostólicos, bispos, padres, o clero em geral – se imiscuíssem em questões políticas de outros povos, nações e estados. Se ninguém ainda ousou dizer, é hora de rever-se e de reagir: essa intromissão é um atentado contra a soberania nacional dos países. Ninguém permitiria que, por exemplo, os representantes da China, do Japão, dos Estados Unidos metessem o bedelho em campanha eleitoral nossa. Por que permitir essa invasão às igrejas e seitas? E, ainda por cima, dando-lhes o privilégio de isenção de impostos.Bom dia.

Deixe um comentário