E, de repente, ela

Cada lugar tem a Edith Piaff que merece. São Paulo, tivemos a nossa. Não, certamente, no mesmo privilégio de voz e nem, talvez, na capacidade interpretativa. Mas tivemo-la, na dimensão trágica de vida, na dramaticidade de sua trajetória artística, na via-crucis sentimental e amorosa. E na postura “à gauche” diante do mundo. Entre ingênua e malandra, entre estrela e grão de areia, entre heroína e bandida – mas, sempre, vítima de si mesma e de sua arte – ela foi Isaurinha Garcia.

Confesso ainda não saber – e de ter desistido de entender – o que foram aquelas duas décadas enfeitiçadas, as de 1950 e 1960. Não apenas no Brasil, mas no mundo, como se um vento de bonança tivesse varrido os quadrantes. Ou que tudo tivesse acontecido antes, quando os deuses reuniram homens e mulheres humildes, fazendo-os gerar – depois de o ventre da Europa vomitar Hitler – filhos que embelezaram e enriqueceram o mundo. Pois tudo aconteceu. E em todos os lugares. Frank Sinatra lá; Agostinho dos Santos, aqui; Kennedy lá; Juscelino, aqui. Piaff lá; Isaurinha, aqui. A bossa nova, Tom Jobim; blues e souls; Marilyn e Brigitte Bardot; De Gaulle e Churchill. Para tudo se esvair em Nixon, Bush e Blair. Ou em “rap” e axé.

Voltei a pensar nisso levado por algumas lembranças. A primeira delas, uma entrevista que o maestro Ernst Mahle me deu, quase se de despedindo de um momento de sua vida artística. O maestro enfatizou uma de suas certezas: a música como educação para a paz, como modelagem da alma para a cordialidade. E o ruído e os barulhos como estimulantes para todas as formas de violência e brutalidade. Os canhões troam para a morte; violinos soam para a doçura da vida.

Outra delas, motivada por um leitor que, comentando a minissérie sobre Dalva de Oliveira, lembrou-se, também com saudade e respeito, de Isaurinha Garcinha. Ora, a minissérie não vi, mas uma das mais fortes emoções que tive, há alguns anos, foi quando dei uma de minhas escapadas até São Paulo em busca de arte e mais arte. À época, quuis e fui ver a peça “A Personalíssima”, teatralizando a história dramática de Isaurinha Garcia. Os paulistanos, vivendo o cotidiano de violência e aflição de São Paulo, sabem que embriaguez de arte e de beleza é privilégio de apenas alguns momentos, quando existem.. E de poucos. As grandes capitais parecem destinadas a ser locais de passagem, não de se viver. Quem pode escapa delas. E quem pode procura-as, de passagem, para, pelo menos, um rápido banho de cultura e de arte.

Admito não sejam, as metrópoles – mesmo as que buscam humanizar-se – lugares de ficar, não devem ser. Mas tornam-se, em meu entender, lugares para onde ir. O meu céu na terra, jardim de delícias, é Piracicaba, lugar de ficar. E, daqui, eu saio para ver o grande mundo. Saio e volto correndo. Acho, até, que de inveja de Proust, refugiando-se num apartamento para escrever “À la recherche…”, saindo apenas para ver a noite de Paris que já se transformava, sua aldeia tornando-se metrópole. Viver como o cuco – botando a cabeça para fora e voltando – é bom.

Apenas muito tempo depois de a peça sair de cartaz escrevi sobre o que vi, pois confesso não mais saber a quem me dirigir, a quem escrever, a não ser para os que amávamos os Beatles e os Rollings Stones. Eram estrelas surgindo quando Isaurinha chegava ao fim. Quem a viu e ouviu não se esqueceu jamais. Eu gostaria de escrever que Isaurinha Garcia foi a Piaff que merecemos. Até mesmo na sofrida vida pessoal. Mas não sei quem entenderia isso. A quem podia entender, escrevi que a Rosa Maria Murtinho, interpretando “Isaurinha”, foi tão comovedora como Bibi Ferreira, quando incorporou “La Piaff”. Ver a “Personalíssima” doeu na alma. Pois foi um contraponto a tempos cruéis. Depois, silenciei. Agora, bateu uma saudade danada e permiti um suspiro de desalento me escapasse. Bom dia.

1 comentário

  1. Elmira em 13/03/2015 às 04:39

    Lindo texto, Isaurinha foi única e merece ser lembrada. O privilégio na voz e capacidade interpretativas da Isaura Garcia são de dimensões superiores.. artistas de teatro estudavam ao assistir seus shows.

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