E Judas, quem seria?

picture (38)Desde pequeno, quando o via pendurado em postes, Judas, o Iscariotes, já me dava pena. Não sei de outro personagem, na história, tão mal-amado e mal-afamado quanto ele. Mesmo com interpretações mais amenas quanto ao papel que desempenhou, o veredicto ficou: Judas é Judas e está acabado.

Não fossem as infames trinta moedas, até seria possível ver um Judas lá com seus motivos para abandonar o mestre. A versão de um traidor mercenário, porém, dificulta até a invenção de outra história. Não fosse isso, poder-se-ia ver um Iscariotes semelhante a alguns de nossos políticos. Mais ou menos. E guardadas e respeitadas todas as distâncias, proporções e contextos, embora, ainda hoje, haja gente que se considere Messias daqui, com Judas de lá.

Imaginemos. A Heloísa Helena – lembram-se dela? – viu o mestre Lula como líder revolucionário, o grande enviado que iria transformar tudo, derrotar potentados, não deixando pedra sobre pedra. Era beber o sangue do inimigo, assar a carne dele na fogueira da vingança. Pau, pau; pedra, pedra. Lula expulsaria os sacerdotes do templo, os reis dos palácios, esmagaria exércitos inimigos. Heloísa Helena acreditou nisso, viveu por isso, transformou Lula em ídolo, guru de um mundo novo. E lutou até o fim.

Pobre discípula! Quando Lula e seus apóstolos chegam lá –e as portas do palácio se abrem – eis que o líder, o guia genial e condutor das massas anuncia o seu lema, a síntese da grande pregação: “Paz e amor, companheira.” E, em vez de expulsar sacerdotes venais, comungou com eles. A confiante Heloísa Helena sentiu-se traída, todos os seus ideais amesquinhados. E abandonou o mestre. E disse, para quem ouvir pudesse: “Lula não é mais aquele.” Passou por traidora do guru, versão feminina de Judas do PT. Mas, nessa versão, não houve as trinta moedas.

Com o Iscariotes – não fossem, insisto, as moedas da história – por que não poderia ter ocorrido algo semelhante? Revolucionário, subversivo, agitador, feroz adversário da legiões romanas e dos judeus colaboracionistas – não teria, Judas, entendido a mensagem de Jesus apenas como a do libertador do seu povo, líder político, como que um PT da época? E, de repente, ouve o Mestre dizer de outro reino, de uma nação celestial e, pior ainda, de “amar o inimigo”. Guerreiro, Judas não teria suportado ouvir: “Paz e amor, irmãos.” Nessa versão, foi-se embora e traiu: “Ele prometeu guerra e não a fez.” Por que não?

Ora, há que se lamentar dessa má fama de Judas Iscariotes. Pois, seja qual for a realidade, o fato é que, sem ele, não teria havido cristianismo, pelo menos a partir daquele momento. Sem a traição de Judas, não aconteceria a paixão, nem a morte e, por conseguinte, nem a ressurreição de Cristo. Se tudo estava escrito, por que essa milenar má vontade em relação ao homem?

De minha parte, além de pena, ando sentindo falta da figura do Judas da versão mercenária, do que traiu apenas por dinheiro. Com ele e em meu tempo, Sábado de Aleluia era mais alegre, dia de “malhar o Judas”. Bonecos eram pendurados em postes e lá nos íamos, todos os garotos, malhar o malfeitor. Que, quase sempre, tinha a cara de um político.

Era purificador, terapêutico. A criançada, por exemplo, ia ao grupo de Salgot e propunha Bentão para Judas. Os salgosistas pagavam as despesas. Depois, ia-se ao Bento: “o Judas será o Luciano.” E Bentão abria a carteira. E os postes da cidade enfeitavam-se com caras de políticos, festa de arromba.

Hoje, quem seriam os escolhidos? Na verdade, acho que não haveria postes suficientes. Bom dia.

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