E o Nobel da Paz bombardeou a Lua

Em outro espaço, permiti-me comentar minha perplexidade diante do que me parece um terrível paradoxo que, talvez, possa explicar os nossos tempos: como pode um homem, como Barack Obama – agraciado com o Prêmio Nobel da Paz – permitir que agências de seu país bombardeiem a Lua? Quem lhe deu essa autorização, se a Lua é de toda a humanidade, se paira sobre todos os povos? Até onde é possível admitir que, em nome da ciência, se violentem valores sagrados para a humanidade?

Não me canso de lembrar – por isso, sempre que posso me reporto ao fato – de quando o adorável Gijo Furlan, naqueles dias de 1969, como que invadiu a redação de O Diário e, dedo em riste, me denunciou: “Você é um mentiroso, está enganando o povo. Não é verdade que o homem chegou à Lua. Só Deus pode fazer isso.”

Gijo, em sua doçura ingênua, um quase simplório, indignava-se exatamente por não se conformar com a violação de um dos mais sagrados símbolos da humanidade e, também, um dos que mais carrega significados religiosos. Era a Lua que fora desvirginada pelo homem, algum tempo depois de o russo Gagárin, deslumbrando-se no primeiro vôo humano pelos espaços, ter declarado que a terra era azul. O que começávamos a fazer? Aquele passo, aquele vôo de Ícaro moderno, a que nos levaria, quais os custos, qual o resultado, quais as conseqüências?

Não há negar o desenvolvimento espetacular da ciência humana e seus imensos benefícios. No entanto, a humanidade não vive apenas da ciência e será terrível se, em nome dela, destruirmos valores, símbolos, significados e significantes que são parte da imemorial alma da humanidade.

Vamos, a pouco e pouco, destruindo riquezas espirituais que compõem o espírito humano, a alma dos poetas, dos amantes, dos artistas, dos místicos, das crianças, das pessoas simples. Bombardear a Lua para ver se se encontra água e, em seguida, preparar-se para ir a Marte? Quantos bilhões ou trilhões de dólares são gastos nessa aventura de dr.Frankenstein quando as organizações mundiais revelam que ultrapassa a um bilhão o número de seres humanos famintos? Como Barack Obama, ao ou se receber o Prêmio Nobel da Paz, irá olhar para o mundo, após, em seu governo, os Estados Unidos bombardearem a Lua?

Recordo-me de, quando Armstrong pisou na Lua, eu ter-me lamentado por ele não ter-se encontrado com São Jorge, por não ter visto a luta do santo guerreiro contra o dragão. Hoje, não saberei mais cantar Blue Moon, não saberei tomar do velho violão e lembrar a canção do passado, canção de seresteiro: “A Lua vem surgindo cor de prata, no alto da montanha verdejante..” Ou o suspirar do sertanejo: “É meia noite, uma viola passa/ Acompanhando uma canção qualquer/ Sorri a Lua com extrema graça/ A assemelhar um riso de mulher.” Ah! “luna que se quiebra sobre la teniebra de mi soledad, adonde vás?”

No entanto, depois de violada pelos Estados Unidos, depois de profanada por homens que se dizem da ciência, terá mais sentido cantar baixinho: “Meia Lua, os teus segredos, onde os deixaste ficar?/ Deixaste-os nos arvoredos das praias d´além mar?” Bom dia.

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