É preciso existir inferno

Antes de mais nada: sou católico. Mau católico, mas sou. Em meu entender é o espaço de fé onde o homem encontra todas as respostas. O problema, no entanto – o meu, pelo menos – é a questão da fé. Racionalizei demais e, a partir daí, surgiram-me questões em que não consigo acreditar, dogmas que me perturbam e me tornam um mau católico. Como instituição, acho a Igreja o que de mais completo existe nas arquiteturas sociais humanas. Mas minha fé ficou tíbia e, na ordem espiritual, perturbo-me e não consigo crer em muitas coisas. Burrice de intelectual, eu sei. Mas é assim.

Por exemplo: céu, purgatório e inferno. São conceitos complicados para mim. Gostaria, porém, que o inferno existisse. Não para mim, é óbvio. Aliás, nem o céu – como se apresenta com toda essa plenitude de paz e delícias – acho que eu suportaria. Seria muita areia para o meu caminhãozinho. E minhas paixões, meus desejos, minhas ansiedades, os amores de minha vida, mulher, filhos, amigos, a cervejinha, a caipirinha, o peixinho frito na rua do Porto, o Corinthians? Aliás, dizem que o fim do mundo acontecerá agora em dezembro. Será depois do campeonato mundial do Corinthians. Se formos campeões, o mundo pode acabar que morrerei feliz. Se o Corinthians perder, o mundo acabará antes para nós corintianos.

Quanto ao purgatório, este eu o considero a mais genial criação teológica da Igreja. O purgatório é mais do que o meio do caminho, mais do que uma intermediação entre céu e inferno. Purgatório é lugar de purgar pecados, de ser punido por algum tempo. Então, há uma certeza que, para mim, me agrada muito: quem for para o Purgatório tem a certeza de que, por mais tempo lá fique, não irá mais para o Inferno. Ou seja: do Purgatório ao Céu, é, apenas, questão de tempo. Mas dizem que, depois da morte, a noção de tempo deixa de existir e, então, até o Purgatório é um complicador.

Em relação ao Inferno, acho que, se não existir ou se não existisse, precisaria ou precisa ser inventado. O mundo atual precisa ter medo pânico de algumas coisas sobrenaturais e não, apenas, medo de bandidos, de assaltantes, do trânsito, de políticos, de banqueiros desonestos. Precisamos do medo do diabo, do demônio, do fogo do inferno, da tortura pelas maldades cometidas, do castigo cruel. Sem medo dessas coisas, a vida vira uma bagunça. E há muita gente – cada vez mais gente – que está merecendo ir para o Inferno, o pior dos infernos, basta pensar naqueles círculos de Dante.

Alguns dizem que o inferno é aqui mesmo. Sartre dizia que “o inferno são os outros”. Até tem sentido. Mas esses infernos são pouco castigo para a bandidagem que anda solta no Brasil, em todas as áreas, em todos os níveis. Que inferno um político safado está vivendo aqui? Para ele, roubar e trapacear – nem que seja com ambulâncias, na saúde, na educação – é o próprio Paraíso. E qual é o inferno dos traficantes, com suas mansões imensas e bregas, com seus iates quilométricos?

Já confessei ser um mau católico. Aliás, estou entre aquelas multidões que têm, por conveniência, um catolicismo próprio: isso aceito, isso não aceito; isso eu faço, aquilo não faço. “Mea culpa”. Mas, em relação ao Inferno, estou de pleno acordo. Precisamos, urgentemente, acreditar no Inferno, no diabo, nos tridentes e nos rabos de demônios, de caldeirões de água fervente, de fogo implacável. Se o Céu existir, é para poucos. No Purgatório, haverá multidões. Se o Inferno não existir, isso será uma injustiça terrível para as vítimas dessa bandidagem crescente em todos os níveis. Eles são o nosso inferno aqui e fazem, disso, o seu paraíso. Se, depois da morte, não existir o inferno de verdade para eles, juro que ficarei muito, muitíssimo bravo, sentindo-me enganado e injustiçado na vida. Ora, se mereço o Purgatório, por que essa gente safada não tem que ir para o Inferno? Se não houver um de verdade, precisamos inventar. Bom dia.

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