E Tiririca, por que não?

Tiririca 2A capacidade de reflexão de grande parte da intelectualidade brasileira – incluindo setores da imprensa – chegou a níveis tão baixos que fica mais fácil compreender porque o povo tem criado seus próprios referenciais. Pois as demonstrações de preconceito, de arrogância, de esclerose de classe são tão despudoradas que a pirâmide social se inverte aceleradamente. A Antiguidade já nos advertira e quase mais ninguém leva isso em conta: “corruptio optimi pessima”. Ou seja: a constatação inevitável de que “a corrupção do bom e do ótimo é péssima.” Isso aconteceu no Brasil e acontece no mundo, como se vivêssemos, realmente, tempos em que não há mais grandes homens e mulheres, mas lideranças fugazes de alguns momentos, com exceções tão raras que se tornam excepcionais.

Ora, por que tanta virulência e estranheza, tanta indignação e tantos narizes empinados diante da candidatura do palhaço Tiririca para deputado federal? Seria por ele ser palhaço, por não estar preparado, por não saber o que seja um legislador? Ou porque, falando a mais absoluta verdade, Tiririca mexeu com o falso orgulho e a falsa honra de congressistas ao usar o slogan honesto e decente: “Vote em Tiririca, pior não fica?” Basta ser minimamente honesto para consigo mesmo e, então, admitir que Tiririca tem toda razão: com ele em Brasília, o Congresso pior não fica.

A reforma político-institucional do Brasil é de urgência urgentíssima. E, para minha alegria, minha mulher – organizando-me a biblioteca, meus documentos, correspondências, todo um histórico de vida – encontrou o que, para mim, é uma preciosidade que pensei estivesse perdida. Trata-se de um documento que redigi – honrado por convite especial do Conselho de Reitores do Brasil (CRUB) – no qual busquei sintetizar a opinião de reitores das universidades brasileiras, em nível federal e estadual, público e privado, comunitário e confessional. Era documento para ser enviado ao então presidente Fernando Henrique Cardoso em seu segundo mandato. Percorri o Brasil, enriqueci-me com depoimentos das mais brilhantes cabeças acadêmicas brasileiras, suas diferenças ideológicas, seu posicionamentos, suas expectativas. E, em todos os depoimentos, houve uma unanimidade a ser enviada ao então presidente: a reforma mais urgente de que o Brasil precisava – e ainda precisa – era política, a questão partidária, a da representatividade política, o sistema eleitoral.

Nada se fez. E nada se fará se o Brasil, como fizemos com a campanha da Ficha Limpa, não se mobilizar. Somente tolos podem acreditar que deputados e senadores legislem contra si mesmos. A pressão se faz de baixo para cima, do povo para a cúpula. A candidatura de Tiririca tem que ser vista, analisada, entendida como representativa de toda uma estrutura brasileira que, agora, está cada vez mais indefinida. Há novas classes sociais surgindo, ascendendo. A aristocracia rural desapareceu. O poder econômico deixa de ser hegemônico. A ideologia esfumaçou-se. A descrença na política como um bem é crescente.

Tiririca tem todo o direito de ser candidato pois preenche as exigências legais, constitucionais e partidárias. Há quem se assuste diante da possibilidade de ser, ele, o mais votado candidato a deputado federal do Brasil. Mas qual é o problema? Paulo Maluf já não o foi? Orestes Quércia não bateu recordes de votação e, até recentemente – apesar de tantos escândalos e denúncias – não era homem de confiança e companheiro de jornada de José Serra? Os suspeitos dos mensalões – do PT, do PSDB, do DEM – não estão por aí, muitos deles também candidatos?

Vivemos o mundo do espetáculo, no qual cabem o riso, a galhofa, a seriedade, a brincadeira, a farsa, a simulação e a dissimulação. Tiririca faz parte desse mundo e tem uma platéia própria. Como outros candidatos: Mulher Pêra, jogadores de futebol, apresentadores de tevê, cantores. Ora, deixemos de hipocrisia e de puritanismos mentirosos e repulsivos e pensemos: Tiririca ou Paulo Maluf, qual pode ser mais nocivo ao Brasil? E, palhaçada por palhaçada, a candidatura do palhaço Tiririca talvez seja muito mais respeitável do que a do sr.Paulo Skaf, o ex-presidente da FIESP, chefe maior do capitalismo paulista que sai candidato pelo Partido Socialista Brasileiro. Ora, vá se coçar! Tiririca é palhaço declarado e tem direito a votar e ser votado. Paulo Skaf, o socialista da FIESP, pensou que os palhaços fôssemos nós.

A ação de Lula na presidência do Brasil fez brotar, surgir, renascer, emergir um novo povo. Que irá eleger Tiririca e expurgar muitos doutores. Será que está assim tão difícil de enxergar como as coisas mudaram? Se nossos políticos deram o direito ao voto a analfabetos, por que não lhes dar o direito de ser votados? Bom dia.

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