Eis o homem

picture (19)No primeiro volume da “Encyclopédie , no longínquo 1751, Diderot e D´Alembert publicaram o conceito de homem: “um ser dotado das capacidades de sentir, de refletir e de pensar; pode mover-se livremente pela superfície terrestre e é o dominador de todos os outros animais que nela habitam; vive em sociedade; inventou as ciências e as artes; é dotado de uma bondade e de uma maldade que lhe são próprias; proporcionou-se mestres e leis que regulam sua vida.”

Há menos de um ano – perplexo diante da multiplicidade das conquistas científicas – me inscrevi num curso de extensão universitária sobre bioética. Se os enciclopedistas franceses tinham suas certezas a respeito do ser humano, de vida e morte, eu me via sem certeza alguma. E, acima de tudo, vi-me em busca agoniada de uma definição atual e científica de vida. Ora – comecei a perguntar-me – o que é vida? Eu queria saber da vida, não de vida. Precisava saber de vida. Não da, de.

Ao final do curso, pediram-me escrevesse o que me fora significativo nas longas horas daquelas semanas. Fui sucinto: “não entendi nada, saí mais confuso do que quando entrei e acho que os professores também estão aturdidos.” Entendi que uma única explicação há que bastar-me: vida é mistério e milagre. Logo, um bem sagrado. E nem sequer coloco deus nessa história.

Pensei, ainda e no entanto, nas capacidades admiráveis do ser humano de “sentir, refletir e pensar”. Pois, cada vez mais dramaticamente, as pessoas sentem menos. E abdicam de sua capacidade de refletir. E recusam-se ao dom de pensar. Qual a possibilidade de existir um ser humano se não houver essa conjunção permanente, harmoniosa do “sentir, refletir e pensar? Que ser vivo é esse que não sente, não reflete e não pensa?

Estamos falando o que os meios de comunicação falam, pensando o que intelectuais pensam, sentindo o que a propaganda deseja sintamos. Sem reflexão. Pois refletir dá trabalho. E exige referências, pontos de apoio, pistas.

Propor a morte, querer matar, desejar o extermínio – como solução – é, obviamente, muito mais fácil do que criar e aperfeiçoar vida. Isso dá trabalho, exige humanidade, em tempos de absoluta selvageria. É mais fácil fingir que, comprando uma arma, estarei protegido de marginais e bandidos do que ir para as ruas e, coletivamente, exigir e cobrar medidas políticas, lutar por justiça, por educação decente e digna, por mudanças drásticas no imenso fosso entre privilegiados e desprotegidos. O egoísmo é mais prático do que a partilha.

É mais fácil propor o aborto do que criar uma consciência reta da sexualidade humana. Há algum tempo – num acinte revelador de nossos tempos medíocres – um conhecido escritor revelou, em patético esforço, a sua grande aventura de juventude: aos 17 anos, “numa noite de luar”, ele engravidou a namoradinha. E entrou em desespero por, vendo-a grávida, não ter dinheiro para levá-la a um médico competente que fizesse, com menos riscos, o aborto de um filho seu. Em nenhum momento, ele falou de vida, mesmo que “por acidente e indesejado”. O “ser inteligente” continua querendo “fazer amor” à vontade, mas sem assumir responsabilidades que o sexo exige. Pois bebês também e ainda nascem de uma relação sexual.

As soluções, pois, tornam-se simples. Engravidou? Mate. Bandido? Mate. Atravessou a rua em hora de “rush”? Mate. Traiu? Mate. É velho, doente, inútil? Mate. “Ecce homo”:

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