Elegância e leão cordial

picture (4)Acredito em sinais, mas não sou supersticioso. Se o fosse, estaria preocupado pois, nestes últimos dias, tenho pensado demasiadamente em Thiago de Mello. E reencontro coisas que escrevi dele, um deslumbramento de que me tomei ao conhecê-lo. Ora, ainda insisto no de que me convenci: fosse, eu, menos soberbo, estaria andando de joelhos. Pois sinto-me brindado com privilégios demais na vida, da vida. Até nas dores. Entre os privilégios, houve epifanias, acho que ainda há. E, se existem, uma delas – a inesquecível, a indelével – aconteceu no privilégio de estar com Thiago de Mello, o poeta. Vi o santo e o guerreiro, o leão e o cordeiro.

Thiago de Mello residia, então, em Itatiba, após o longo exílio. E honrou-me em dar-me uma entrevista para o Correio Popular de Campinas onde ainda escrevo. Sabe, a transfiguração no Monte Tabor? Aconteceu comigo, aconteceu para mim. Eu vi a transfiguração de um homem, a sua absoluta nudez de alma, a luz que lhe emanava dos olhos, que lhe saía dos poros. Thiago de Mello era um feixe de luz.

Naquele dia, eu me lembrei da luz e da mariposa, imagem que se usa para tentar entender o místico Juan de La Cruz, São João da Cruz. Para explicar o que era a luz, uma mariposa aproximou-se da vela, voou ao redor, não teve muito o que contar. Outra, aproximou-se mais, queimou as asas, quase se cegou. A terceira mergulhou na luz, queimou-se, extinguiu-se. A rainha das mariposas explicou: “Agora, ela entendeu: tornou-se luz.” Thiago de Mello, quando o conheci, já era luz. Tinha-se extinguido, transudava paz, parecia flutuar.

Ele se vestia todo de branco, como o homem de seu “Estatuto do Homem”. Acho que ainda se veste. Ou que se veste ainda mais de branco, quando a velhice lhe chegou, abençoando-o em seu retiro à beira do Amazonas. As paredes da sala, onde me recebeu, eram como que feitas de livros. E, no entanto, tudo era leve. E, para conversarmos, ele convidou Mozart como anfitrião, a música de Mozart embalando o lugar de Thiago viver. Foram três horas de conversa, no primeiro encontro. E mais três, no segundo. E, depois, dias e dias e dias, como se eu tivesse penetrado num mosteiro e não mais conseguisse sair de lá.

Não posso esquecer-me, pois foi choque de epifania: quando, da primeira vez, saí do encontro com Thiago de Mello, eu não sabia onde estava, em que rua, em que lugar, em que cidade. Foi tal o impacto que me fraquejaram as pernas , senti tudo escurecer, como um desmaio, e a dor intensa me atingiu o estômago, vomitei. E não consegui parar de chorar. E eram tantas as lágrimas que eu não sabia dirigir ao longo da estrada, nem para onde ir. Eu me convertera, era uma conversão. Thiago de Mello era, ele próprio, o convite de conversão a um ideal de beleza, à elegância, à delicadeza da vida, a uma lição reverencial de ser, de render graças, de descobrir maravilhas.

Não tenho vergonha de confessar: depois de conhecer Thiago de Mello, tive vergonha de mim. Senti-me pedra bruta. Vi-me com máscaras demais. E com teias de aranha no coração. Em Thiago, vi a possibilidade concreta, palpável, real de o homem estar em harmonia com tudo. Dele, vertia, em gotas, uma ética fascinante, a ética da estética. Em Thiago de Mello, o belo comungava com o bom.

Emociono-me ao lembrar disso ao rever, ainda agora, espalhando-se pela internet, uma mensagem que pretende contagiar pessoas, apaziguar os tempos, serenar os ambientes. São, ainda e novamente, palavras de Thiago de Mello, convidando-nos a experimentar a maneira generosa de viver, a do comportamento elegante. Elegância de viver é a arte da cordialidade, diz e propõe Thiago. Na verdade, é um segredo: com elegância, o leão é cordial. Bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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