Encontrar o outro

Esse texto foi publicado em 25 de agosto de 1979 em O Diário. E depois selecionado para o livro Bom Dia: Crônicas de Autoexílio e Prisão, lançado em 2014

A descoberta do outro é, sempre e cada vez mais, um processo renovador e vivificante. De repente, dou-me conta de que a multidão, aparentemente anônima, tem identidade. E descubro o fascínio que existe em se poder olhar nos olhos do desconhecido, ver-lhe a fundura das rugas, os contornos dos traços, as marcas todas da vida que carregamos no rosto. A vida deixa cicatrizes. Cada sulco encerra uma história.

O meu desafio tem sido descobrir, muda e silenciosamente, o segredo e o mistério que guardam os rostos desconhecidos. Descobri que as pessoas não se olham nos olhos. Nem mesmo os amigos mais chegados. Evitam olharem-se, na tentativa de não se desnudarem, de não deixarem a descoberto o que lhes vai pela alma. O desconhecido nunca vê o outro que está a seu lado. Não fala, não olha, não sorri, não chora. Fecha-se em si mesmo, apenas em seu mundo, seu pequeno universo íntimo. Minha aventura tem sido olhar o rosto do desconhecido, e nele, descobrir o outro, captar as suas emoções. As ruas e praças, as filas, os bancos de jardim, são as grandes passarelas. E os elevadores. E o metrô.

Pálida e abatida, uma senhora sentou-se ao meu lado no metrô. Estava entre tantos, mas conseguiu manter-se só. Aos poucos, comecei a sofrer por ela. Encarei-a e ela não percebeu. De repente, fechou os olhos, levou a mão ao rosto, franziu o cenho. Parecia tentar segurar os pensamentos, ou então, querer apaga-los. Naquele momento, senti que a amava. Que lhe amava as rugas, os trajes simples, os cabelos quase brancos. Eu descobria o outro.

O solavanco do vagão, parando numa estação, fê-la sair de si mesma. Olhos opacos, os seus passaram distraidamente pelos meus. Desejei que nos falássemos mais fundamente. Estava convencido de que poderíamos nos entender, num diálogo mudo: eu, descobrindo, sua história; ela, levando de mim, pelo menos um sinal de solidariedade. E então, tornou a olhar, talvez sentindo o peso da minha aflição. Sorri-lhe. A mulher tentou um sorriso. Aproximava-se a estação onde eu desceria. Rompi a timidez e disse-lhe apenas: “Tenha fé.” Ela me olhou novamente, compreendendo agora que eu compreendera ou que sua história lhe escapara dos olhos. “E adianta?”, perguntou. Garanti-lhe que sim.

Antes de a porta fechar-se, vi-a sorrir-me. Sei que nunca mais irei encontrá-la. Mas, de nosso rápido encontro, sobrou um sorriso, uma marca. Não há encontros que não deixem marcas. Seu sorriso triste foi a marca de nosso encontro. Bom dia.

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