Encruzilhada e escolha

picture (38)Em conversa com empresários, disse-lhes do meu pouco tempo e como me é importante o que resta. Preciso, ainda outra vez, viajar. Por dentro de mim. Ir-me, novamente, à procura de algo que se perdeu e, agora, já não me interessa saber quando ou onde. A esperança está em reencontrá-lo, o desejo de que esteja intato. Se tiver sido de cristal, estará perdido.

Ouvi, de um falso líder do povo, a explicação por seu sucesso: “Não se chega ao poder sem fazer vítimas. Não se pode ter compaixão nem remorso.” Como se atingido por uma faísca, dei-me conta de que o ainda tolo comandante fazia, apenas, uma síntese dos tempos: sem compaixão e sem remorsos. Ora, como viver alguma forma de esperança? Para quê, então, vida comunitária, comunidades?

Quase ao mesmo tempo, ouvi a história de um filho que, com grande influência social, permitira o pai morresse como indigente numa casa de misericórdia. Motivo depois alegado: o pobre homem fora um mal pai. Então, o bom filho lhe negou até mesmo um jazigo onde se lhe apodrecessem as carnes. Mais do que o poder, o desamor faz vítimas.

Há tempos – acho que uns dez anos – uma sábia e veneranda mulher sugeriu-nos, a seus amigos, lições de vida. Na cátedra de seus quase 90 anos, contava-nos da reunião mantida com os filhos, que escasseavam suas visitas, contatos familiares. Ela não cobrava presença de nenhum deles. Apenas lhes disse: “Amor é convivência. Só se ama aqueles que estão próximos.”

Não sei, ainda não sei. Sentimentos são-me misteriosos. Em alguns momentos, acredito sejam pessoais. Em outros, penso serem universais, como se a alma humana fosse única e imensa, cada pessoa com direito a um fiapo do infinito. A convivência une ou destrói elos afetivos? A intimidade soma ou divide? Enriquece ou empobrece, dá ou tira? É possível amar o outro como a si mesmo e, também, anular-se pelo outro, morrer pelo outro? Quem morre por amor a alguém não seria suicida? Suicídio por amor é o mesmo que matar por amor? Perguntar não ofende. Mas dói.

Por isso, não mais sei se viver é arte, se ciência, se um suspiro que se dá diante da eternidade. Não conviver é ruim. Conviver pode ser pior ainda. Estar só amedronta. Estar acompanhado inferniza.

Essas coisas, eu as digo e nelas penso por, na verdade, sentir-me diante da encruzilhada. E penso no quase sepulcral silêncio de meu pai nos almoços familiares, entre sua tribo. Ele ouvia e silenciava. Quando, um dia – e sempre me reporto a essa lição de sabedoria – lhe perguntei da razão de seu silêncio, ele me explicou: “Vocês sabem tudo.” Não sabíamos nada.

Estar em encruzilhada é, ao mesmo tempo, ver-se diante de diversos caminhos e sentir-se no centro do mundo. Encruzilhadas, pois, não são, apenas, incertezas, dúvidas, perplexidades. São, também, espaços e momentos para reflexões definitivas, pausas para encontros finais, início ou reinício de jornadas. Povos primitivos entendiam desses mistérios. Por isso, criam altares, deixam flores, alimentos e até mesmo as próprias imundícies no centro dos lugares encruzilhados. Sabem que algo acontecerá. E tudo acontece quando o homem faz, de seu umbigo, o centro do mundo. Para sair dele.

Preciso ficar no centro dessa cruz. Para convencer-me de ter respondido corretamente à pergunta que me fez um jovem: “Devo educar meu filho para ser um homem esperto ou para ser um homem bom?” Sugeri escolhesse formar o homem bom. Bom dia. (Ilustração: Araken Martins)

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