Entre um “É…” e um “Ah!”

As coisas, é como se elas não existissem se as palavras não lhes derem nomes. Mas aconteceu, ainda acontece o quase absurdo: imagens pensam existir por si mesmas, esquecidas de que a própria palavra imagem diz o que imagem é : aquilo que se imagina, sinal, percepção, representação. Assim, quem vê imagens – e não se importa com palavras que lhes dêem nome – pode imaginar sem sequer saber o que é. Parece complicado. Mas nem tanto.

Houve um tempo de festa dos comunicólogos. Dizíamos, então, uma só imagem valer mais do que mil palavras. Era bobagem. Aliás, outra entre tantas do que chamamos de pós-modernismo. Sem saber ainda o que era ou foi o modernismo, caímos no pós-modernismo. Alguns foram além: tornaram-se pós-pós-modernistas. Há, ainda, uns que outros por aí. A modernidade, no entanto, sempre se fez penumbrosa. E, talvez, tenha sido melhor assim. Pois brincamos de ser inteligentes. E nem nos demos conta de que o moderno, “modernus”, existe desde o século IV.

Divagando, vou tentando dizer, ainda, das palavras. Uma só, apenas uma pode valer mais do que mil imagens. Ao contrário, pois, do que se dizia na festa dos comunicólogos. Houve uma peça – traduzida pelo Millôr Fernandes – cujo título era apenas isso: “É…” E dizia tudo. Aquele “É…” resumia filosofias, estilos de vida, certezas e dúvidas. Mil imagens não exprimiriam o que foi dito por aquele “É…”

E o “ah?!”? A respeito do envolvimento de um deputado local em denúncias de corrupção, outras, um velho amigo, homem de bem, exclamou um “ah!” entre a dúvida e a surpresa. E eu, de minha parte, para lhe aumentar o desconsolo, respondi apenas: “É…” E o velho amigo não percebeu que, sem mais palavras, manifestei todo o meu espanto diante da incredulidade dele. . E não creio haja outro recurso verbal humano mais eficiente como síntese do que um prosaico “É…” Depende da entonação.

Olha-se um por-de-sol, deslumbra-se com ele, não se consegue explicá-lo mas se entende e se sente a beleza dele. Diz-se, diante do êxtase: “É…” E fala-se tudo. E, diante da tragédia, de escombros e dilaceramentos, não se entendendo a loucura humana ou conhecendo a absurda dimensão da miséria coletiva: “É…” Diante do que se não entende e do que se entende, do que surpreende ou do que desanima, como se não houvesse outra saída, talvez até mesmo revelando a impotência humana: “É…” A alma diz tudo.

E o “ah!”, a interjeição vital? No alívio: “ah!”. No prazer, na dor: “ah!”. Na descoberta: “ah!” Na fecundação: “ah!”. No dar à luz: “ah!” Ao nascer e ao morrer: “ah!” Um primeiro e um último suspiro: “ah!” E na esperança e na desesperança, na satisfação e na angústia: “ah!”

Sabe-se a alma humana manifestar-se através dos olhos. Deve ser verdade, pois são eles, os olhos, que emitem luzes quando a alma palpita de amor e que ensombrecem no amargor da perda ou da saudade. Mas alma não escapa apenas pelo olhar. Ela comunica-se, também, por sopros de si mesma, por sussurros, pela respiração, por sons monocórdios que dizem tudo o que palavras não conseguem dizer.

A impotência humana é, hoje, tão dolorosa que, talvez, não nos reste mais senão dois sussurros: um “ah!”, um “é…” Quando se vê a barbárie, quando se depara com a miséria, diante de violências e agressões, talvez nada mais se possa fazer senão exalar esse “ah!” do desânimo diante daquilo que parece não mais ter solução. Ou, então, o “É…”, que pode corresponder – quem sabe? – a uma conclusão: “Eis onde chegamos.”

No caso da corrupção, “É…” Seria bom fosse o contrário. Mas, ah!, por que não é? Bom dia.

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