Era só refresco

picture (60)Já não se fazem mais campineiros como antigamente. Hoje, Campinas é uma nova Babel, cidade babilônica, ponto de encontro de brasileiros de todos os rincões. O campineiro da cepa, de nariz empinado, orgulhoso – esse anda escondido, atropelado pelas multidões que tomaram conta de Campinas. Mas ainda há um que outro daqueles campineiros chatos, amigos meus. E mais chatos ainda porque jornalistas. Gente mais chata do que jornalista apenas jornalista campineiro.

Meus almoços com esses amigos, lá em Campinas, são recheados desses não-me-toques-não-me-reles e de um profunda inveja do jeito caipiracicabano de ser aqui desse humilde servo. É inveja, sim. Eles ficam babando ao ouvir falar da rua do Porto, do jeito que “nói sabe” das coisas, de nossa hora de “ponhá o armoço”. Fingem que zombam, mas ficam com lombriga só de pensar em , à tardezinha, “podê dá umas zoiada nas água do sarto.” E, além de tudo, esses meus amigos campineiros e jornalistas mostram uma ignorância brutal, ofensiva, absurda. Por exemplo: eles não sabem o que é refresco. Pensam que se trata de refrigerante.

Num desses almoços – e, metidos a besta, meus amigos jornalistas e campineiros gostam de restaurantes mais com frescores do que refinados – levei uma vaia homérica, ainda que eu não saiba se existem vaias homéricas. Escolhendo-se as bebidas, eu quis saber quais os refrescos que se serviam na casa. Foi o que bastou para a vaia, digamos que estrepitosa e não homérica: “Caipira, botocudo, piracicabano atrasado! Não se fala mais refresco, isso é coisa de capiau. É refrigerante!” Enfezei. Não por eu ser caipira, mas por estar com tanto campineiro burro e ignorante a meu lado. Não tem jeito: os sete ou oito campineiros à antiga que ainda existem continuam insuportavelmente arrogantes como nos tempos de Campos Salles.

É o fim do mundo, campineiro não saber que refresco é refresco, refrigerante é refrigerante. Qual é? Eu queria beber um refresco, não um refrigerante. O garçom ficou olhando-me como se eu fosse um idiota. . Onde já se viu desconhecer questão tão elementar? Caipira, sim, com muito orgulho, mas não ignorante como aquele bando engravatado e de nariz empinado. Amigos, amigos, ignorância à parte, ora bolas! Pois refresco é diferente de refrigerante. Ambas as bebidas podem refrescar, refrigerar – mas refresco é refresco e refrigerante é refrigerante. Das alturas de minha caipiracicabanice, ensinei ao garçom e àquela campineirada: “Refresco é feito com frutas e água, falô? E refrigerante é essa porcariada artificial que se serve por aí, com exceção, é óbvio, da gengibirra, que é refrigerante sem ser porcaria..”

Veja-se, pois, que a imensidão da cultura caipiracicabana continua viva, enquanto a da campineirada vai indo para o brejo, acho que engolida por Hortolândia, Sumaré, Nova Odessa, Paulínia. Após a minha notável lição de caipiracicabanismo, o garçom me serviu um refresco de abacaxi com hortelã. Provado ficara, pois, que refresco é refresco, refrigerante é refrigerante, CQD, como eu queria demonstrar. É isso aí. Falei e disse. E bom dia.

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