Escola e música

Escola de músicaSenti-me aturdido e, de certa forma, um espectador culpado. Pois, ao ler que o ensino de música será reintegrado à grade escolar, dei-me conta da estupidez de minha geração que, à guisa de destruir o ultrapassado, quase nada construiu em seu lugar. Na verdade, eu nem me dera conta de que a escola abolira o ensinamento de música. E lá estava, portanto, uma das causas da tragédia da educação,do ensino, da formação do ser humano. Como é possível educar ou forjar a pessoa humana sem a música, sem as artes, sem o belo? Foi o que fizemos. Escondemos o belo e a feiura avultou;desmoralizamos o bom, o mau ascendeu; ridicularizamos o bem, o mal ficou à vontade.

Os anos da ditadura militar, a pretexto de se construir uma nação decente, tentaram impor uma nova concepção de ser humano que, na verdade, era mais adequada à substituição do espírito pelo mecanicismo. A economia colocou a produção em primeiro lugar e, automaticamente, o alto consumo como conseqüência. Se, antes, a escola e a família buscavam fazer, da criança, uma construção de pessoa humana, de cidadão, passamos a adotar como que um taylorismo familiar e educacional, na produção em série de seres humanos preparados apenas para produzir e consumir. Antes de cuidarmos com atenção redobrada a valores constitucionais do cidadão e da nação, passamos a falar em “proteção aos consumidores”. O Procon é, hoje, uma instituição mais vigorosa do que a própria Constituição, o que apenas confirma a prevalência da imagem do consumidor sobre a do cidadão.

Tentamos matar o humanismo mas ele, teimosamente, volta. E está voltando na necessidade que as pessoas sentem de polidez, de atenções, de cuidados, de outros valores que não os apenas materiais. Sem um maciço investimento humanístico na criança e no adolescente, de que lhes valerão as imensas possibilidades abertas pelos verdadeiros milagres da tecnologia? Uma referência, que se tornou clássica ainda que com aspecto humorístico, é a do jovem que, para trabalho escolar, pesquisou sobre Beethoven na internet. Ele concluiu que Beethoven foi um cachorro muito bonito e interessante que deu margem a uma série de filmes de sucesso no cinema.

O retorno do ensino de música à escola deve ser saudado com alegria e como perspectiva de mudanças mais profundas. Mesmo assim, vi-me aturdido ao dar-me conta da omissão de minha geração em permitindo a devastação que se fez na educação brasileira. Pois foi, a minha geração, uma das últimas a ter-se embrigado do humanismo nas escolas, numa simbiose formidável entre ciência e humanidades. Quando, hoje, vejo ou ouço pais se lamentando do que consideram grande carga de estudos de seus filhos, fico próximo da indignação, lamentando pelos tesouros sonegados à juventude atual.

Para ilustrar, digo de experiência que tive há ainda poucos anos quando resolvi ingressar na Faculdade de Filosofia. Eu era um sessentão entre jovens. Nas primeiras aulas, os professores ensinavam coisas e perguntavam delas, querendo testar os alunos. Fiquei com vergonha. Pois tudo o que ensinavam eu havia aprendido no meu curso colegial, nas aulas de filosofia que nós, adolescentes de então, bebíamos. Se a família nos dava aconchego e segurança, educação e civilidade, a escola nos formava para a vida, desenvolvendo-nos a humanidade. E tínhamos – como esquecer – Matemática, Física, Química, História Natural (biologia, zoologia, anatomia, etc.), impregnadas e humanizadas por Desenho, Música, Religião, História do Brasil e História Geral, Geografia do Brasil e Geografia Geral. E Português, Latim, Inglês, Espanhol, Francês, com aulas, também, de Literatura Brasileira e Portuguesa, Inglesa e Francesa. E esportes, muito esportes. A Música inundava as salas de aula, entrava-nos pelos ouvidos, alimentava a alma.

Dizem que agora a Música voltou. E eu nem sabia que se tinha ido embora. Há que se penalizar de uma juventude e de uma infância sem o belo. Que pena! Bom dia.

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