Escolhas

EscolhasPor algum tempo, fiquei sem notícias de um velho e querido amigo. A preocupação aumentou quando familiares dele, outros amigos comuns começaram também a se inquietar, sem informações, sem notícias, sem saber de seu paradeiro. Ora, ele é um gênio, dos raros que conheci ao longo da vida. E, como todo gênio, tem suas excentricidades e, também, a vocação para estar “à gauche”. Convive com seus fantasmas, sendo quase incapaz de conviver com grupos. Se houvesse, ainda, catacumbas, esse meu amigo estaria nelas. Aliás, logo deverá estar, pois começo a acreditar que, no processo do eterno retorno, há novas catacumbas surgindo, pequenas comunidades que se sentem expulsas ou que se isolam por si mesmas.

Finalmente, recebi notícias desse meu amigo e entendi-o ainda mais e melhormente. Ele escreveu, um bilhete eletrônico carinhoso e explicativo: “Não mais possuo telefone fixo desde que me mudei da chácara. Agora moro em um bairro quase tranquilo de (…) onde depois do jantar os vizinhos colocam cadeiras nas calçadas ou nas varandas para conversar. Um deles é taxista, vários são aposentados, outro é um faz de tudo. Durmo cedo, por volta das dez horas e acordo às 5 da madrugada quando minha mulher e eu saímos a caminhar, o céu sempre escuro, silêncio. O dia começa a clarear quando retornamos. Por onde andamos há horizontes, vales profundos, a serra. Quando retornamos dessa caminhada diária de seis quilômetros cruzamos com alguns carros com faróis acesos. (…) O dia começa bem cedo.”

Confesso ficar, nas conversas comigo mesmo, cada vez mais convencido de estarmos diante de um tempo extraordinário de mudanças e de recuperações. É como alguém que, tendo ficado à margem da estrada, vê multidões passando, milhares indo, milhares voltando. À beira da estrada, sabe-se para onde elas estão indo e de onde voltam: vão para o nada, voltam do nada. É a mesma imagem do fundo do poço. É preciso chegar ao limite para se descobrir que a única saída é tentar retornar.

A história dos mosteiros e dos conventos nasce do medo do mundo. As terríveis visões de pecado, as maldições, pragas, os horrores a que pareciam destinados os homens – já que seu próprio Salvador fora assassinado – eram impossíveis de ser enfrentados. O milênio da terra teria que ser de martírios para se aguardar o milênio de felicidades em outro mundo. A fuga ao mundo (“contemptus”) era proporcional ao desprezo que se tinha por ele. Refugiar-se em conventos, em mosteiros, em cidadelas protegidas era aguardar alguma forma de salvação, a proteção contra inimigos diabólicos.

De uma certa forma, estamos presenciando – em outros contextos e num tempo em que a ciência tenta explicar tudo e explica pouco – medos da mesma intensidade, com fantasmas iguais mas travestidos por outras formas. O sonho do homem é fugir do mundo, procurar a paz em algum cantinho mais sereno e até mesmo bucólico, onde vizinhos, após o jantar, se sentem às portas das casas. É um sonho que se vai tornando cada vez mais coletivo, refletindo-se, equivocadamente, na busca e na construção de condomínios fortemente protegidos e com recursos abundantes. O engano se vai revelando cruel. De paraísos sonhados, são gaiolas de ouro aprisionando almas desesperadas.

Há obras e obras milenares que falam dos sonhos e das expectativas de paraísos terrestres. Uma delas, parece-me, é das mais notáveis por não propor a fuga do mundo, mas, sim, como viver no mundo, mas separado dele, isso que aquele casal amigo, acho, está fazendo. Em “Cidade de Deus”, a sabedoria de Agostinho – e confesso estar cada vez mais assombrado com o poder da inteligência desse homem dos primeiros séculos do cristianismo – consegue fundir o pessimismo diante do mal ao otimismo diante dos bens da vida. Transcrevo apenas um trecho:

“Que dizer deste brilho vivo da luz e da magnificência do sol, da lua e das estrelas; da sombria beleza das florestas, das cores e do odor das flores, da multidão de pássaros tão diferentes de canto e plumagem; da diversidade infinita dos animais dos quais os menores são os mais admiráveis?(…)”

A escolha de meu amigo querido é venturosa. Se nem todos podem fazer ou pretender o mesmo, todos poderíamos, no entanto, fazer escolhas menos infelizes, dando um basta às desordens, à corrupção, às fraudes, às depravações, aos banditismos. Somos cúmplices de todos eles quando, podendo protestar, silenciamos. A desordem moral e legal começa com pequenos deslizes, como o de pisar na grama quando se sabe não se dever fazê-lo. A vida são escolhas. Decidir por certas ou erradas, esse é poder de cada um. Bom dia.

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