Escrevendo…

Nunca fui de esconder o que sinto. Até hoje não sei se isso é bom, se é ruim. Alguns me dizem que isso é péssimo, pois o pragmatismo da vida exige que as pessoas se fechem feito ostras, que escondam sentimentos, que nunca revelem o que pensam e, pior ainda, que usem da palavra exatamente para mistificar o que pensam e o que sentem.

De minha parte, confesso que não sei viver assim. Vou mais longe: acho que já teria morrido, há muitos e muitos anos, se guardasse dentro de mim todas as emoções que vivi, ou se não manifestasse o que pensei em cada momento da vida, mesmo que, depois, revisasse o pensamento.

Até já escolhi o que deve ser escrito em meu túmulo, quando eu vier a morrer na ainda jovem idade de 126 anos. Será assim: “ele nunca passou vontade.” E não passei mesmo. Quando pude fazê-lo, fiz tudo o que quis, tudo em que acreditei, tudo o que me apaixonou. Lamento a vontade do que não pude fazer, por enquanto.

Assim, por nunca ter escondido o que penso ou o que sinto, vou usar desta coluna para fazer um agradecimento. Eu seria injusto se não o fizesse. Aconteceu que o maior sonho de minha vida foi, desde a minha infância, o de ser um escritor. Antes de aprender a ler, eu queria ser escritor. Acho que ainda no ventre de minha mãe, eu queria ser escritor.

Programei a minha vida, desde a meninice, para ser escrito. Li, estudei, pesquisei, aprendi línguas, perguntei, ouvi, vi, contemplei, mergulhado num único sonho: ser escritor. Nunca me importou se eu seria bom ou mau escritor, se teria algum êxito. Eu queria ser escritor, quero.

A vida não tem sentido sem a criação literária, sem o meu mundo apaixonante e desafiador com minha máquina de escrever.

No entanto, a vida me levou a outros caminhos, o do jornalismo, o do magistério, o da política, o da advocacia. Então, um dia, mandei tudo às favas e recolhi-me no mato. Poucos entenderam isso, como se eu tivesse ficado maluco. Nunca, no entanto, estive tão lúcido quando mandei tudo às favas. Eu queria e iria escrever, custasse o que custasse. Apareceu a Beatriz, também com o mesmo sonho. Escrevi meu primeiro livro em 1965; o segundo saiu apenas em 1978. O terceiro aconteceu em 1988. Ao longo de todos esses anos, fui escrevendo e jogando fora. Em 1992 entreguei aos meus conterrâneos o “Piracicaba Política”. Mas já havia o “Arco” de 1990; o “Pastorella”, de 1991. E não parei por aí…Agradeço a Beatriz por sua compreensão e participação.

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