Escrever, com simplicidade

Desde que me conheço por gente e frequentava bancos escolares, foi-me ensinado que o grande segredo da arte de escrever está na simplicidade. Veja-se Machado de Assis: nada mais simples e, no entanto, ninguém com tanta profundidade. A busca da simplicidade, no escrever, é, pois, um objetivo que precisa, arduamente, ser alcançado. Tem que ser uma obsessão. O escritor e o escrevinhador não escrevem para si mesmos, mas para algum leitor. E o leitor, por sua vez, reescreve o que leu.

De minha parte, confesso que há autores que jamais consegui ler. Certamente por burrice minha. Pois, se alguns deles são tidos como gênios, quem não consegue lê-los tem que ser burro, não é uma lógica razoável? Cito alguns: James Joyce, especialmente no “Ulisses”, Guimarães Rosa que, em meu entender, tem que ser decifrado, lido com glossário. E os irmãos Campos, Haroldo e Augusto, os tais concretistas.

Não consigo lê-los e não discuto, assumindo a minha ignorância. Vejam, por exemplo, que se comemorou o centenário do Orestes Barbosa, aquele dos versos “pisavas os astros distraída”, tido como uns dos mais belos da língua. Trata-se de uma inspiração com chispa de gênio, nascida com simplicidade e beleza, dessas coisas que somente podem acontecer em mesa de bar. Pois bem. Agora, lá nos vem o Haroldo de Campos, o concretista, para explicar os versos de Orestes Barbosa. E Haroldo diz o seguinte: “Superando a todos na disjunção paronomástica do sintagma “astros distraída”… E vai em frente? Ora, Orestes só quis dizer que a mulher amada pisava nos astros distraída, apenas isso, uma imagem belíssima. E o Haroldo diz que Orestes fez uma “disjunção paronomástica do sintagma”. Dá para ler alguém que faz questão de complicar as coisas? Pois é isso: a busca, na ane de escrever, tem que ser a simplicidade.

No entanto, nos últimos tempos, criaram-se clubinhos fechados de autores que parecem disputar o troféu da complicação.

Cada um escreve para si mesmo ou, no máximo, para mais uns dois ou três. E ocupam os espaços literários dos segundos cadernos dos jornais, que estão se tornando ilegíveis.

Ora, é por isso que um Paulo Coelho – que não tem qualquer valor literário – estoura em vendagens de livros. Ele descobriu um filão que agrada o povo e foi em frente. O povo lê e entende. Não há literatura, mas há lazer.

Os que complicam também não fazem literatura, não criam lazer, o prazer da leitura.

Há que saber interpretar os sinais dos tempos. Fala-se que a informática está matando a literatura, a letra impressa. Não é verdade. Há um novo papel que o pessoal ainda não descobriu O povo está querendo ler. O problema é que não há o que ler. Tanto assim que as editoras estão reeditando os clássicos.

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