Especialistas em generalidades

Futebol, política e religião

Quanto mais sobrevivo, mais me recordo do silêncio de meu pai. Era de sabedoria, mas nós não o entendíamos. Pois, em meio às grandes discussões familiares – cada filho pensando diferente do outro, polêmicas homéricas – ele permanecia quietinho, apenas observando. Certa vez, inconformado com o que me parecia indiferença, perguntei-lhe do porquê dos silêncios. Ele apenas respondeu: “Não tenho mais nada a falar. Vocês sabem tudo…”

Lembro-me disso por admitir estar vivendo dias de indagações pessoais que me incomodam. Aliás, que me incomodam cada vez mais. Vejo-me sem saída: continuar escrevendo, mesmo achando um atrevimento tudo isso, ou parar, mantendo o silêncio de um poucochinho de sabedoria que começa a surgir? A minha é a fase da contemplação, uma quase certeza de nada mais ter a dizer e certa tristeza por  ter dito o desnecessário. Comunicar-se é conquista ou castigo, dom ou penitência?

Há uma antiga historieta do jornalista que – em busca de explicação para a sabedoria –  foi ao mosteiro de um sábio indiano.  E perguntou-lhe:  “Mestre, o que é a sabedoria?” O sábio não respondeu. E o jornalista insistiu: “O que é a sabedoria, Mestre?” E o sábio permaneceu em silêncio. O repórter ainda insistiu pela terceira vez e nada o sábio falou. Ao fazer outra tentativa,  o sábio falou:  “Eu já respondi três vezes. É o silêncio…”

Como homem de letras, a mim mesmo me pergunto qual a importância de escrever, de falar se a humanidade – num tempo de materialismo desenfreado – perdeu a capacidade de reflexão? Se não pensar, como alguém pode refletir? E, sem reflexão, como encontrar respostas para si mesmo, fazendo opções diante dos mistérios da vida? Os tempos massacrantes bloqueiam o pensamento, a capacidade de refletir e de decidir. Os meios de comunicação – em especial, os massivos – “pensam” pelas multidões. Eles não fazem perguntas, não levam a questionamentos. Pelo contrário, oferecem respostas prontas.

Quando – cada vez mais insistentemente – se fala em “liberdades de expressão e de opinião”, está-se, na realidade, falando de liberdade plena, geral e irrestrita para a “voz do dono”. Ou foi gratuitamente que se criou a teoria da instalação, no mundo, do “pensamento único”? A grande busca – na loucura do poder – é a mesma que também enlouqueceu religiosos quando se propôs o ideal de “um só rebanho, um só pastor”. Esse delírio eterniza tentativas tirânicas e retarda, cada vez mais, a formação de consciências coletivas, ainda que diminutas.

Acabo, neste quase final de jornada, rendendo-me à sabedoria dos antigos, dos livros que, chamados de sagrados, são, na realidade, livros de sabedoria, de profunda sabedoria. E rendo-me, também, à sabedoria popular. Ora, o que pode haver de mais verdadeiro do que o entendimento do povo de que “política, religião e futebol não se discutem?” Quem conseguirá convencer um palmeirense a tornar-se corintiano? E um dito evangélico tornar-se “filho de Maria”? Ou um petista a votar num tucano?

Toda essa grande farsa nos meios de comunicação induz a outra farsa ainda maior, a de que existe uma opinião pública. Não há apenas uma. Há muitas, centenas. Ou deveria haver, conforme as fontes de informação. Uma só opinião pública indica, apenas, a existência de uma sociedade tirânica. E o velho Marx – que nunca foi marxista – continua a ser lembrado cada dia mais, pelo menos como filósofo: “A cultura dominante é da classe dominante”. Entenda-o, pois, quem puder. Ou quiser.

Minha conclusão pessoal a respeito da opinião jornalística: há que se ter cuidado para com ela. Verdade absoluta está na aritmética: 2 + 2 = 4. Opinião respeitável é de especialista em cada questão. E, mesmo assim, depende do especialista. Nós, jornalistas, somos, apenas, especialistas em generalidades. Ao opinar, damos apenas pistas. Ou simples palpites. Bom dia.

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