Esperança: “padrão Sesi”

Ao longo de toda a minha  vida, jamais recusei um convite sequer para dar palestras ou falar algo a estudantes, de crianças a universitários. Além de sentir-me lisonjeado, sempre considerei ser um dever a cumprir. E assim foi por longos e longos anos. Até que, certa vez, me dei conta de ter-se tornado inútil fazê-lo e, portanto, uma tolice de minha parte.

Acontecera que, a pouco e pouco, o caos fora-se instalando em nossas salas de aulas. Começara nas casas, nos lares, onde pais abriram mão de seu dever primordial de educar, transferindo-o às escolas. Crianças incivilizadas, como se fossem turbas, transformaram, gradativamente, salas de aulas – antes, lugares sagrados – em casinhas de mãe Joana. Professores – antes, mestres a quem se reverenciava com quase devoção – passaram a ser desrespeitados de forma absurda. Pais – em vez de se aliarem a mestres – fortaleciam os filhos em sua incivilidade e quase barbárie.

Aceitei, pela última vez, conversar com alunos há poucos anos. Foi quando desisti, percebendo, enfim, que chegáramos ao limite do caos. A balbúrdia era total. Todos reunidos num belíssimo salão nobre, grupos de professores tentavam colocar ordem na confusão, debalde e inutilmente. Crianças e adolescentes pareciam uma horda de bárbaros. Xingavam-se, atiravam coisas uns nos outros, zombavam dos professores. Percebi ser impossível falar qualquer coisa. Mas tentei. Minha tolerância não foi além de dois minutos. Dei um murro na mesa, alguns berros no microfone e falei o que pensava deles: “Vocês são frutos de suas famílias. E o Brasil está perdido se depender de vocês.” Os professores me aplaudiram, os alunos assustaram-se e me chamaram de volta. Não retornei. E foi minha última vez.

Na verdade, a penúltima. Pois, há alguns dias, recebi um convite de jovens professores conhecidos meus para ter uma conversa com alunos do Sesi. Confesso que minha vontade era a de recusar. Mas os moços eram tão dedicados, estavam tão entusiasmados que acedi e cedi. Mas sem expectativas. E foi quando acabei vivendo uma das mais alvissareiras experiências de meus últimos tempos em relação à educação. O que vi – naquela manhã, no Sesi, em Vila Rezende – foi uma aula de civilidade, de educação moderna, de unidade entre professores e alunos, num clima contagiante de alegria saudável, vivificante, sadia.

Ora, pouco me importa se alguém confundir essa minha reflexão com a campanha política de Paulo Skaf. Não tenho nada a ver com isso. E nem me interessa. No entanto, é meu dever de consciência dizer que o que vi no Sesi foi uma demonstração real, concreta, vívida de como é possível, neste país tão maravilhoso e sofrido, promover a educação de nossas crianças e da juventude. Sei que, em algumas escolares particulares, essa nova mentalidade e esse novo rumo educacionais começam a dar frutos. Mas o que vi no Sesi é de fundamental importância por se tratar de uma realidade sistemática. Não é algo isolado ou setorial. Trata-se de um sistema que se espraia, que contagia, que tem pretensões e objetivos amplos.

E não me digam que isso é possível por se tratar de Sesi, de poderosa instituição empresarial. Não é isso. Trata-se de uma filosofia e de vontade de fazer, de acreditar e de investir. Prefeituras têm, sim, dinheiro e verbas para instituir uma educação primorosa nos municípios. No entanto, há mais jogos políticos do que visão e vontade de realizar. Piracicaba – e nunca nos esqueçamos disso, senhores! – foi, desde o início da República, um dos modelos educacionais do país. É uma tradição, uma herança genética. Nossas escolas foram pioneiras e exemplares. Nossos mestres tornaram-se ícones da educação brasileira. Por isso, não podemos admitir e aceitar tenhamos permitido a mediocridade na qual caímos.

Esse “padrão Sesi” de educação – com o qual convivi por algumas horas, ouvindo alunos, professores, conhecendo instalações, salas de aula, laboratórios – é um modelo a ser seguido para uma recuperação da histórica vocação educacional de Piracicaba. Pelo menos, é o que penso. Isso poderá acontecer quando professores e funcionários da educação forem mais valorizados – e remunerados – do que vereadores à Câmara Municipal. E bom dia.

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