Eu é ela

Adão e EvaQuando uma mulher se aproxima, eu me levanto. E ofereço-lhe meu lugar, se ela estiver de pé. Abro-lhe a porta do automóvel e de lugares. Dou-lhe a mão, para ela se apoiar ao subir ou descer degraus. E o braço, para não se desequilibrar em seus saltos altos. Uso dois lenços ao sair de casa: um, para meu uso pessoal; outro, no caso de uma mulher precisar. Para enxugar lágrimas ou gotinhas de suor. Ou manchas de batom. Mesmo assim, não pensem tratar-se de cavalheirismo à antiga, pois não é. Apenas sou do tempo em que a mulher era uma criatura com uma dignidade especial, pois com missão também especial no mundo.

A mulher se conhece a si mesma a partir do homem que ela ama e ao qual se entregou. Se não confiar no homem, a mulher permanece escondida em seus mistérios. Não é verdade que o homem os descubra. Ela, ao confiar, se permite a garimpagem que revelará tesouros dela também desconhecidos. O homem apenas a faz surgir, sendo parte, pois, de um nascimento do feminino. É essa, talvez, a alegoria do nascimento de Eva, surgida da carne de Adão. Ao contrário e por sua vez, o homem é uma construção feminina.

Eu não nasci da costela de meu pai, mas do ventre de minha mãe, onde fiquei protegido na eternidade de nove meses. Quando nele estive agasalhado, posso jurar ter visto minha mãe olhando-se a si mesma no espelho, tímida e orgulhosa, já me conhecendo pelos contornos de sua barriga. E acariciando-se no ventre, como se me embalando, o sorriso beatífico no rosto, em estado de graça. Em suas entranhas, essa mulher me construía.

Uma noite de amor bastou e fui plantado no útero de minha mãe. Ela não me abortou e eu fui gestado e gerado para a vida. Ela aceitou ser rasgada em suas entranhas para eu nascer. Ela me pariu entre dores e lágrimas, entre sangue e líquenes. Mas, ao me ver saído de seu ventre, trocou as lágrimas por sorrisos e me abraçou. E, logo depois, me deu os seios para que eu os sugasse como alimento. Aquela mulher, que vertia sangue quando não fecundada, exsudava leite para manter a vida de sua cria. O sangue da mulher é o grito de protesto de um útero não semeado. O leite, o milagre da criação, a revelação da missão salvífica da mulher, da mãe.

Quanto mais caminho pelo tempo e mais reflito sobre o dom da vida, mais compreendo o óbvio: fui e sou uma construção feminina. Amei mulheres e, quando consentiram no amor confiável, sei ter-lhes dado a possibilidade de se descobrirem a si mesmas. No entanto, sou uma construção de mulheres. Uma a uma, desde o primeiro vagido, elas realizaram, em mim, a missão especial: cuidar, proteger, acarinhar, amar. Mulher cuida e protege: homem defende e dá segurança. Mulher enfeita e orna e adorna; homem luta na selva do mundo. Se essas coisas se invertem, o fundamental está comprometido. E não dá certo.

Sou, pois, um pouco de cada uma delas, minha alma e vida marcadas pela sutileza da força feminina, pela presença permanente, por cordões umbilicais tanto físicos quanto espirituais. Nasci de mulher, tomei leite de mulher, fui alimentado por mulher, banhado por mulher, educado por mulher. O mundo, que me foi revelado, é feminino na beleza e na generosidade, masculino na luta e nas intempéries. A figura de meu pai é como a da rocha cuja força me inspira. A de minha mãe é a sombra que me acompanha em todos os momentos da vida, como se o cordão umbilical se tivesse tornado carne da alma.

São mulheres que me construíram, sou obra humana de mulheres. Creio que homens, se tiverem coragem de admitir, são assim. Mamei, engatinhei, dei os primeiros passos, nos braços de mulher. O mundo se me revelou através de mulheres: Zulmira, a negra e gorda e alegre cozinheira, dando-me bolinhos na boca; Cidinha, a menina com quem brinquei de médico na primeira infância; Shirley, o primeiro amor, dos nove anos, a quem escrevi meu poema imortal: “Lua bunita que alumia o capim/ num leve a Shirley de mim.” Romilda, primeira professora, paixão fulminante, mestra, porto seguro; Marilu, a doce prostituta, que me iniciou nos segredos do amor; Mariana, primeiro grande amor, mãe de meus filhos; minha tia Nelly, confidente e amiga, ombro de minhas confidências; Madre Rachel, a santa que, em momentos de desespero de um coração sem fé, me ensinou a recitar o rosário.

Sou, pois, uma construção feminina, de todas as mulheres que, tijolo por tijolo, me ergueram o edifício moral com o qual pude estar na vida e no mundo. O meu eu é construído por elas. O meu eu é obra de mulher. Esse eu é ela. Por isso, nesta celebração, só posso agradecer: Ave, mulher, cheia de graça. O senhor é convosco e bendita sois vós entre todos os seres vivos.

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