“Eu é” um outro

Viver é uma andança. Se é verdade que o tempo e os rios não voltam, o homem volta. De repente. Ou devagarinho.

De quando em quando, encontro anotações em velhos cadernos, em páginas amarelas. De tanto já ter escrito, não sei se as publiquei, se ficaram escondidas. Numa dessas páginas, estava escrito sei lá se já divulguei, mas que ainda me serve:

“Aconteceu no alto da montanha, ao frio e à chuva. Não sei bem o que aconteceu, se um parto, se morte, se ressurreição – se tudo ao mesmo tempo. Pari-me, morri, morri-me, matei, matei-me. E alguém novo surgiu, como que vindo de profundezas pessoais, interiores. Do fundo de mim, do mais fundo a que pude chegar. Se morte, se ressurreição, se parto, o que houve não aconteceu com dores. A melhor imagem seria a de um suspiro que escapou do peito, um suspiro retido.

No amanhecer escuro, acendi a luz, olhei-me no espelho. Era eu mesmo e, também, era outro. Lembrei-me de uma frase de Rimbaud: “Eu é um outro”, “Je est um autre.” Pois lá estava eu. E era um outro. E, então, como se eu falasse para o outro que era eu próprio, murmurei para mim mesmo: “Ecce homo”, lá estava o homem, o homem-eu, sem que eu tivesse sido Pôncio Pilatos de mim. Um outro, mas seu o meu farrapo de púrpura com o qual caminhei até o último minuto do ano. Morto aquele, morto algum, ressuscito outro ou nascido de meu próprio ventre. Eu me gerei e me pari, “ecce homo” – a idéia me agradou.

Os anos que passam me parecem , tão distantes que ficaram apenas recordações, as que selecionei. O cálice havia transbordado, meu cálice de mágoas, de amarguras, até mesmo de cólera. E me restava um sabor de vinho novo ou de mel recém-recolhido nos lábios da alma. Eu me gerara ou ressuscitara ou renascera ou havia apenas morrido com sabores de frutas e de flores silvestres. A guerra chegara ao fim e, entre mortos e feridos, acho que morreram todos. Menos eu. Que escolhi viver e recomeçar.

“Ecce homo”, repeti, insisti em dizer-me: eis o homem, o novo homem, o outro homem, “eu é um outro” ou um outro em mim, talvez tantos que existiam e que não haviam conseguido emergir. E, no então, olhando mais fixamente para mim mesmo, vi novos fios de barba e de cabelos brancos, novas marcas no rosto, um outro ríctus de maturidade ao lado dos lábios, a prova de que o parto não fora tão pacífico e sereno como me parecera. Eu sofrera parindo-me. O alívio, pois, era da sobrevivência. Eu sobrevivera a mim mesmo. Aos outros. Aos tempos. E o outro eu estava lá, diante do espelho, dizendo-se e dizendo-me coisas que, parecendo fáceis, tinham sido dolorosas de acreditar, de falar e de admitir: o novo eu não seria mais capaz de – apenas por compromisso ou obrigação – viver com pessoas, em pessoas, nelas, delas, através delas. Que, por mais amadas fossem, se tornassem elas mesmas por si mesmas, deixando-me ser por mim próprio. O verdadeiro e novo eu me falava de respeito, apenas de respeito. Das pessoas por mim. E de meu respeito por elas. Será o limite de minhas relações.

Voltei da montanha, a chuva me acompanhou. Um amigo, esperando-me retornar, estendeu-me o braço generoso no abraço e no cumprimento de ano novo. “De homens novos”, falei, desejando que assim fosse. E ele concordou, sem saber que apertava a mão de um fantasma. Pois ele pensava que eu fosse eu mas eu já era um outro. Com mais mil anos. E assim será. E que assim seja.”

Sei que assim foi. Que já foi. Tomara continue sendo. Bom dia.

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