Euclydes Buzetto

Euclides BuzettoAntigos áugures, quase todos, iam ao alto das montanhas para ouvir e interpretar mensagens dos deuses e do destino. Eram as aves que as traziam, como que portadoras dos bons e maus acontecimentos para os povos. Ainda hoje, mesmo que multidões não o percebam, aves avisam. A história humana, esse mistério insondável, perpassa o ar, atravessa fronteiras, rompe barreiras do tempo e, quando menos se percebe, está acontecendo e repetindo-se em todos os lugares quase que concomitantemente. Pensadores iluminados – como Jung, Campbell, Elíade, entre tantos – captaram esse mistério da história que parece emitir relâmpagos de transformações que varrem o mundo. De repente, o que acontece na China está ocorrendo, também, no Canadá. E o vento das transformações é impossível de ser contido.

Quando Euclydes Buzetto não se elegeu vereador, nas últimas eleições municipais, os sinais eram claros e estavam bem dados, aves avisando, o povo sendo seu intérprete: as transformações tinham chegado também a Piracicaba, num movimento ainda difícil de entender ou interpretar, mas que vai solapando valores, princípios, cultura, história. São os ventos do pragmatismo varrendo o Ocidente, atropelando tudo, ao passo que o Oriente se mantém agarrado a uma cultura impermeável à influência ocidental. Queiramos ou não, há uma guerra de civilizações e de culturas. As cidades, por pequeninas sejam, estão atingidas por esse sopro de mudanças. Euclydes Buzetto foi um dos últimos idealistas da política piracicabana, homem culto, professor emérito, quase que um ingênuo em questões partidárias, que, no entanto, deu tudo de si em benefício de sua terra, na luta de nossos interesses coletivos, de nossos valores, de nossa gente. Ao não ser eleito, o recado do destino nos foi dado: a hora é de mediocridade. Pois quando os povos dão as costas aos homens bons e íntegros, preterindo-os, na vida pública, em favor de oportunistas e aventureiros, a hora é amarga. E o futuro, uma incógnita.

A morte de Euclydes Buzetto – quase aguardada, dada a gravidade do mal repentino que o acometeu – deixa esse vazio de expectativas, de esperança e de entusiasmo. Pois foi a inabalável fé de Euclydes Buzetto na decência e na dignificação da vida pública que lhe permitiu ter e criar esperanças, viver e transmitir entusiasmos. Foi como se, em nenhum momento, ele tivesse deixado de exercer a vocação que o chamou e a que se abraçou: o magistério. Professor na escola, foi professor na política e na sociedade. Para muitos, seu grande pecado foi a ingenuidade na política, mas, na realidade, foi esse o seu grande capital, o diferencial que o fez ser amado e respeitado.

Devo, em dimensão pessoal, a Euclydes Buzetto um dos orgulhos e um dos problemas de minha vida, quando ele me indicou para receber o título de “Piracicabanus Praeclarus”, num tempo em que esse título tinha, ainda, grande significado, pois se tornou mais uma das banalidades de que alguns vereadores se apoderaram. Não quis recebê-lo, hesitei, pois, em 50 anos da existência do título, eu seria o 16º piracicabano a recebê-lo. Não me considerei merecedor, mas me senti honrado e, em especial, pelo fato de ter havido um voto contrário, o de uma vereadora do tucanato. Foi-me um sinal alentador: Euclydes criara a polêmica e conseguira provar a máxima rodrigueana de que “toda unanimidade é burra”. Fiquei grato a Euclydes, à Câmara, mas isso não me impediu de exercer o meu papel de jornalista com visão crítica da realidade. Nem sempre estive ao lado de Euclydes Buzetto, nem sempre concordei com suas ideias, mas estou entre a multidão de piracicabanos que sabem ter sido ele um homem honrado, um idealista esclarecido, um lutador por nossas causas.

A morte de Euclydes Buzetto deixa o aviso de que a política local se torna menor. Por outro lado, porém, há que ser interpretada, também, como uma herança de dignidade e de bem a ser transferida às novas gerações. É amargo dizer adeus a homens de bem. A memória de Euclydes Buzetto será reverenciada por sua vida feita de idealismos e de integridade. Que essa memória esteja conosco como um dos nossos generosos referenciais. Bom dia.

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