Existir, sobreviver, viver, entender

SobreviverNunca entendi pessoas alegrando-se por se considerarem sobreviventes. Ora, circunstancialmente, sobrevive-se a um acidente, a uma doença, a uma tragédia. Mas sobreviver à própria vida, como se esta fosse um castigo, pena, maldição? É-me mais fácil compreender morte e ressurreição do que sobrevivência.

Tive uma experiência inesperada. Diante de vinhos e queijos – sinais de escolhas boas diante da vida – encontrei-me com um casal amigo, ambos na beleza de uma maturidade descansada, sem aparentes dificuldades. A surpresa do reencontro, abraços, a inevitável reação: “Há quanto tempo! Como estão vocês?”

E, então, as respostas. A mulher: “Vou sobrevivendo.” O homem: “Vou existindo, vivendo.” Quando os ouvi, os bancos escolares pareceram queimar-me a carne. E tudo voltou à memória, ensinamento de um velho professor não me lembro mais se se referindo a Santo Agostinho ou a Tomaz de Aquino. Ele tentava ensinar-nos: existir, o que está no mundo existe. Mas nem tudo que existe vive. A pedra existe mas não tem vida, não vive. O cadáver existe mas não vive. E a planta, que existe e vive? Eis aí – dizia-nos gloriosamente o velho mestre – a grande maravilha do ser humano. Que existe, que vive e que, diferentemente de outros seres, entende. A flor e a lesma existem, vivem mas não entendem a existência e suas vidas.

Naquele hipermercado – diante de amigos que vão existindo, vivendo por viver, sobrevivendo – retornaram-me algumas convicções que, na realidade, me obrigam a enraizá-las. Existir, pedras e cadáveres existem. Viver, plantas e animais vivem. Lutas de sobrevivência são da ordem natural das coisas, pois a morte é inimiga da vida. No entanto, o ser humano – por existir, por viver, por sobreviver – temos que parar de brincar com a vida. Porque pensa, o homem não apenas existe. Porque pensa, o homem entende. E porque entende não lhe resta outra sabedoria senão a da compaixão.

Um homem e uma mulher, estando juntos há tantos anos, não podem num supermercado dizer que apenas vão vivendo, sobrevivendo, existindo. Isso, parece-me, é desmerecer a humanidade deles mesmos. Quem existe e ainda vive, para merecer a existência e a vida, há que tê-las entendido. A menos que viver seja castigo, inferno no vale de lágrimas. Se for essa desgraça, para quê, então, manter tal e tanta agonia? Bom dia.

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