Experiência de imbecil

picture (19)Entro, ainda, em conflito quanto à razão humana. Pois não sei, ainda agora, se é um bem, se um mal. Inteligência do homem é algo extraordinário. Razão, no entanto, parece-me um enquadramento a necessidades e objetivos, aspecto menor da inteligência que é um todo mais amplo.

Sei lá, eu, se é isso mesmo. Mas me serve para continuar vivendo em paz entre os mil conflitos da alma humana, satisfações e vazios. Montei minha equação: para sobreviver, usa-se a razão; no entanto, vive-se com a inteligência. E, nesta, há uma alma pulsante, sentimentos, intuições, uma ancestralidade que não nos abandona nunca. A humanidade parece dividida entre os que vivem e os que apenas sobrevivem.

Ora, dizem os dicionários que imbecilidade é qualidade ou estado de imbecil. E que imbecil é o desprovido de inteligência, estúpido, tolo, parvo. São, portanto, definições estabelecidas racionalmente. Ou seja: um esquema. Mas descobri, maravilhadamente, que imbecil pode ser uma fascinante qualidade da alma, não uma falha da inteligência. O imbecil ri-se da complexidade das coisas, ri-se alegremente dos absurdos, diverte-se com as seriedades alheias e, mais ainda, ri-se de si. E rir-se de si mesmo, qual graça mais benfazeja ao homem?

Vivi a experiência de imbecil ao longo de toda uma semana. E estou fascinado. As ordens, pós-operatórias, eram pétreas: repouso, recolhimento, recuperação. Apavorei-me, pois não acredito sequer em um “dolce far niente”. E havia e há muito a fazer, na minha corrida contra o tempo e minha certeza lúcida de que o meu, de produtividade, se reduz e se escoa.Fui, pois, obrigado ao forçado “far niente”.

Foi quando me aconteceu a bela experiência da imbecilidade, numa clarividência tal que me pareceu o Eureka!, o encontrei, berro atribuído a Arquimedes. E minha experiência de Saulo caindo do cavalo, escamas de peixe descolando-me dos olhos. Pois não é que eu já era imbecil e não sabia? Pois, pensando ser inteligente e no uso da razão, não tenho passado de um grande imbecil diante dos meios de comunicação, também assim tratado por políticos, por grandes conglomerados, por prestadores de serviços, por supermercados, por administradores municipais, estaduais e federais, até pelo vendedor de pipoca à entrada do cinema. Acreditando haja seriedade nas instituições, quero levá-las a sério, torno-me sério, mas tudo não passa de uma grande chanchada. E o pior: não sou autor dela, mas me torno co-autor; não a dirijo, mas participo. E, na palhaçada e na farsa, fico no palco e na platéia ao mesmo tempo. Papel de imbecil, portanto.

A essas conclusões cheguei quando me rendi, impotente, diante da televisão, de programas dos quais me apartei há décadas. Assisti a novelas, adorei toda aquela divertida imbecilidade, bem tramada, bem urdida. Fiquei fascinado com a Hebe Camargo, a maneira como ela, fingindo ser imbecil, espalha a sua imbecilidade adorável de forma a que nos tornemos imbecis também. Maravilhei-me com a Gimenez, a burrinha com sensual corpo de diaba e sorriso de anjo. E os Simpsons e Friends e os filmes de faroeste. E o meu Corinthians, meu Corinthians, tum-tum-tum, amor que voltou, paixão que fingi ter morrido, “sou louco por você, Corinthians, fico rouco, tum-tum-tum, minha paixão, tum-tum-tum.”

Gostei dessa imbecilidade toda, pois não é falsa, não é fingida, uma imbecilidade real, verdadeira, doce, lúdica. A pausa foi providencial para me mostrar que a imbecilidade da inteligência é uma coisa, imbecilidade da razão, outra. Imbecil da razão eu estava sendo ao acreditar na seriedade institucional. Imbecil na inteligência é divertido. E rir é mesmo o melhor remédio. Só que, para rir, é preciso lavar os neurônios com alma e sabão. Daí, a alma aparece. Bom dia.

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