Explicando o umbigo enterrado

Confesso que tive oportunidades-mil de ir-me embora de Piracicaba. Não me faltaram propostas, nem convites, nem oportunidades. Cheguei, até mesmo, a ir. Mas eu ia e voltava. Fiquei dividindo-me entre aquelas seduções infantis das grandes metrópoles que fascinam e a imantação do umbigo que ficou enterrado em algum lugar. Ninguém escapa de seu próprio umbigo. Por mais que se fuja dele, o umbigo está lá, onde foi enterrado.

E é o umbigo que chama, que puxa, que prende. As novas gerações não devem entender, mais é como o primeiro dente-de-leite, caía, as mães o enterravam em álbum lugar, ou o guardavam como lembrança. Dava na mesma: enterrado, no telhado, ou guardado num pedacinho de papel-de-seda, o dente estava lá. Como o umbigo.

Não há, pois, como fugir-se da própria origem. Eu me afastava de Piracicaba, o sábio e saudoso Luiz José de Mesquita – o “Doutor Mesquita”, homem que traduziu a “Mater et Magistra” – me procurou. Era um entardecer. Estávamos na sala da varanda de minha casa. Ele, o “Doutor Mesquita”, me falou: “Não faça isso, não se vá. É uma busca inútil. Nenhum lugar do mundo é mais importante do que a cidade onde a gente nasceu, onde o umbigo foi enterrado. E ele, emocionado, contou-me: “Saí pelo mundo, vivi em todos os lugares. No entanto, quando comecei a envelhecer, fui em busca da cidade onde nasci. Era lá que estava tudo o que havia de mais importante de mim: o primeiro amor, a primeira namorada, a primeira professoram, o primeiro amigo, o primeiro xixi que fiz na rua, o primeiro esperma que escorreu do meu corpo”.

Então, dizendo-me aquelas coisas, ele chorou. E nostálgico é aquele que está distante de sua pátria, do lugar onde nasceu. Lembram-se de Ulisses, o da Ilíada, o da Odisséia: pois ele era um nostálgico. Indo pelo mundo e por todos os mares, ouvindo o canto de todas as sereias, mesmo assim ele quis voltar e ficar. Precisou estar no universo para, então, descobrir que o melhor da vida está em sua própria província, síntese de tudo. Foi o que, intuitivamente, ensinei para os meus filhos: “Vão, busquem o mundo, mas se lembrem, sempre, de que o lar é o lugar para onde sempre se volta”.

Certa vez um amigo me disse: “Você insiste em ser um escritor de província”. Tomara eu fosse isso, um escritor de província! Pois é a única maneira que existe de alguém tornar-se universal: ser enraigadamente de uma província. Pois é isso o mundo, uma província.

Deixe um comentário