Falsas flautas mágicas

picture (65)Pois é. Nada há de novo sob o Sol, por mais que o tempo passe, por outros sejam os contextos. O otimismo aparente de políticos e candidatos é patético, um otimismo que espanta pois é como se muitos não percebessem as mentiras que se pregam a si mesmos. Ora, na inteligência do ser humano, pouco existe tão inconsistente quanto o otimismo pelo otimismo. Quase sempre, o otimista é um irrealista, aquele que não consegue ou não quer ver a dramaticidade do mundo e dos tempos. Até filosoficamente, o otimismo é complicado. Tanto quanto o pessimismo.

Políticos, quase sempre, são pessoas práticas, pragmáticas, realistas. Por isso, soa falso quando fazem declarações otimistas, quase sempre em ano eleitoral. Basta acompanhar as declarações a respeito do retorno da inflação, fenômeno mundial. Diante de quadros sombrios, eles proclamam otimismos sem explicação, sem causas que os expliquem. É como alguém que, mergulhando no precipício, sorrisse, todo cheio de alegria: “no fundo do buraco, tem um colchão de penas.” O otimista morre feliz.

Esse otimismo inconseqüente assemelha o político ao dr.Pangloss – personagem que consagrou o otimismo ridículo – do “Candide”, de Voltaire. Olhar o mundo com óculos cor de rosa é escapismo ou estratégia. Ignora a realidade e, assim, cria uma outra, imaginária, falsa, fictícia. É panglossiano, o mundo cor de rosa e falso proposto por políticos, como se pudessem fazer magias. São tocadores de flautas no mundo das maravilhas.

A “Flauta Mágica”, de Mozart – com sua inspiração oriental e maçônica — é exemplar desse otimismo fantasioso, de magias que despertam entusiasmo e crenças. Otimista, o “tocador de flauta”, ao lado do “caçador de pássaros”, com sons de flautas e sininhos, cativa pessoas e animais da floresta. Na cidadezinha de Hamelin, outro otimista, com sua flauta também mágica, salvou o reino dos ratos que o infestavam: tocou, enlevou. Os ratos se deixaram seduzir e afogaram-se no rio. A cidade exultou com o flautista de Hamelin. Mas, em seguida, a tragédia aconteceu: seduzidas pela flauta maviosa, também as crianças desapareceram, afogando-se nas mesmas águas onde os ratos morreram. Nem ratos, nem crianças. O flautista de Hamelin carregava a tragédia oculta sob o otimismo.

No Brasil – sem que se transformem profundamente as estruturas, a espiritualidade do povo, a consciência cívica – o otimismo será de uma tolice inominável. É o douraramento da pílula. São as embalagens, formas sem conteúdo. Promessas políticas lembram a lição de Leopardi: “mudar alguma coisa para continuar tudo igual, para nada melhorar.” Essa, nos reinos e nas cortes, sempre foi a função de candidatos: mostrarem-se como vinho novo mas em barril velho.

O Brasil – e Piracicaba – não precisa mais de otimistas ou de pessimistas, mas de homens que tenham – à luz da solidão de Gramsci – o ceticismo da razão com a esperança no coração. O ceticismo desvenda caminhos. A esperança ilumina-os. Isso nada tem a ver com otimismo, essa tolice dos cândidos. É uma história que – como nas que contam a chegada do esperado — caminha para um final de esperança. O sucesso de Lula está no canto e encanto que despertou. Foi como o Rei Sapo que, no lago do Palácio da Alvorada, se transfigurou não em Príncipe Encantado, mas num cavaleiro das esperanças dos humildes. Isso não se repete sempre. E bom dia.

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