Falta de assunto

Falta de assuntoÉ óbvio que, de quando em quando, o escrevinhador fica de olhos pregados na tela do computador, sem saber o que escrever, sem nada a motivá-lo. Dizia-se, antes, ser a “síndrome da folha em branco”. Agora, pode ser a da “tela em branco”. Por outro lado, são conhecidas as crises de criação de artistas, pintores, músicos, escritores. É como se espírito e cabeça se esvaziassem e se desse, então, a paralisia até mesmo de emoções. Muitos desistem de vez. Outros esperam o vazio ser preenchido mesmo porque, em havendo vocação, não há como fugir dela. A arte persegue. E será infeliz quem dar-lhe as costas.

No entanto, há sempre o dever a cumprir, a responsabilidade a ser assumida, especialmente quando a atividade se torna profissional. Nesse sentido – falemos, agora, do jornalista, do cronista diário – perde-se o direito de não fazer. Bem ou mal feito, isso não importa quando a crise bate, pois é preciso fazer. Mas e o assunto? Pois é nisso que, numa experiência pessoal já mais do que cinqüentenária, penso quando, fim de ano, parece não haver mais assunto senão o próprio final do ano, as festas, o Natal, o reveillon. Assunto há. E basta ficar olhando para o vazio ou fechar os olhos para saber disso.

Não acredito, mais, portanto, em falta de assunto. Há indisposições, talvez até mesmo a falta de inspiração pois, por mais alguns neguem, inspiração existe. Não sei traduzi-la, explicá-la, de onde vem, como surge, mas existe. Acontece de repente, num suspiro ou num solavanco. Pode ser até mesmo dormindo. E aparece a partir de um olhar, de um perfume, de um voo de passarinho, de uma nuvem no céu. Ou, então, simplesmente do nada, daquilo que nos é desconhecido a partir da razão.

Um bater de olhos nos jornais da manhã, um flash de um programa de televisão, uma palavra dita por alguém, um comentário anônimo, e eis assuntos abundantes para um escrevinhador do cotidiano. Ora, lá está nos jornais que a moça e o namorado mataram os pais. Essa brutalidade desperta considerações sem fim, desde os porquês de um crime até à milenar vocação humana para o assassínio. E o Ronaldo, o gordo do Corinthians, que está prestes a se mudar para uma casa de 17 milhões de reais, ao mesmo tempo em que conclui, no Rio, um apartamento no valor de 22 milhões? Em paralelo, há o caso da professora do Nordeste que ganha apenas 100 reais mensais. Um semi-analfabeto, mas talentoso e com a arte nos pés, torna-se milionário, incensado por poderosos, reis e governantes. E a educadora, a que inicia a criança no universo civilizatório, não consegue sequer sobreviver. Ou não há algo de profundamente injusto nisso? Ou é essa justiça neoliberal, do mercado, que escolhemos, com a pirâmide de valores de cabeça para baixo?

Aliás, em se falando de assunto, lá está a informação de que 77% dos brasileiros têm medo de andar na rua e de que 37% dos lares têm grade na porta ou na janela. Ou seja: aquilo que Castro Alves tanto cantara – “a praça é do povo como o céu é do condor” – morreu. Casas tornaram-se prisões, bandidos dominam as ruas. Mas isso, de tão banalizado, deixou de ser assunto. E é esse, talvez, o maior problema dos próprios cronistas: nada mais os surpreende, nada mais os fascina, nada mais os espanta. Ora, sem fascínio, sem surpresa, sem espanto, como escrever?

E o que dizer do “leilão de virgindade” que acontecia pertinho de Maceió? Num tempo em que se diz ninguém mais se importar com a virgindade das moças, eis que se faz leilão de “moças virgens”, uma raridade que passou a valer ouro no mercado. Logo, virgindade tem, ainda, importância. Ou não? Se não tivesse, por que haveria tanto interesse em “leilão de virgens”? A loucura dos tempos é mais assustadora do que parece. Mas leitores e escrevinhadores, com as exceções de sempre, parecem anestesiados diante do horror. E cegos diante das maravilhas que ainda existem sem que quase ninguém mais as veja ou lhes dê importância. Assunto, pois, há. E quanto! Talvez, o que falte seja alma de sentir. Bom dia.

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