Fanáticos por cinema

CinemaSou fanático por cinema. Daqueles que, como aconteceu nos anos 60, assinava os “Cahiers du Cinèma”. Fui de acompanhar tudo, de saber nome de diretor, de roteirista, dos bastidores de filmagens. Era uma época em que o Brasil não apenas tinha, mas vivia, aspirações de ser grande, civilizado. A Vera Cruz se transformava em orgulho nacional, pensávamos que poderia se tornar – porque não? – a Hollywood dos trópicos. Quando O Pagador de Promessas ganhou a Palma de Ouro em Cannes, sentimo-nos como se fossemos gente grande. O Leonardo Villar, o grande ator, era piracicabano, nascido aqui pertinho, Saltinho ou Mombuca.

Depois… Bem, depois foi tudo isso que aconteceu: o vôo em queda livre, para baixo, a deterioração, essa infelicidade toda que está por aí, a perda dos brios e da vontade, o desfalecimento de talentos e vocações.

A pouco e pouco, fui deixando de ser um estudioso de cinema, de teatro, deixando de lado a ambição de ser autor e tornei-me um simples espectador. Mas continuei apaixonado por cinema. Aguentei, pois, mais de três horas à frente da televisão para ver o “Oscar”. E me vi torcendo, como se fosse torcedor de futebol.

Se há uma arte que parece ter sobrevivido à mediocridade, creio eu que esta é o cinema. A televisão não o matou, como muitos haviam prognosticado, transformou-o. Se já não há tantos e muitos “monstros sagrados”, continuaram consolidando-se grandes atores, diretores, roteiristas. E, quanto mais envelhecem os antigos, mais parecem adquirir uma definitiva dignidade artística. Para muitos, a beleza física vai esmaecendo, mas se tornam, como que por um paradoxo inexplicável, velhos ainda mais bonitos. Como quando estiveram presentes Marcello Mastroiani, Sophia Loren, Catherine Deneuve, Elizabeth Taylor no palco do entrega do Oscar, despertando um:a atitude reverencial da plateia. Era como se, naquele palco, estivessem não apenas mitos, mas símholos. E me emocionei ao ver o êxtase, o estado de contemplação, o deliciamento que havia no rosto de atores mais jovens, vendo aqueles atores e atrizes no palco, já envelhecidos mas com uma dignidade irradiante.

Ora, o cinema não é apenas uma fonte de lazer. Mas um instrumento de arte pura, de cultura, um dos mais democráticos que existe. E a televisão consegue transformar-se nisso, quando se torna séria e desperta a sua consciência de veículo cultural.

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