Fantasmas e sons

FantasmasPodem me achar de antigo, mas acho que descobri mais um dos vazios da cidade, isso que está aumentando a saudade e a tristeza das pessoas. O vazio maior, sem qualquer dúvida, é o desaparecimento dos fantasmas, pois eles se escondem. Certa vez, fui a uma solenidade de formatura no Teatro São José e vi-o todo reformado, pelo menos pintado. Fiquei olhando para o alto, vendo o teto com sua pintura borrada, aquele teatro incrível agora destinado quase a gafieiras. O mesmo havia acontecido com o Teatro Santo Estêvão: foi-se deteriorando, deteriorando, acabou tornando-se apenas a “boca do Diabo”, demoliram-no.

E lá se foram alguns fantasmas esconder-se em algum lugar, desalojados. No teatro São José, olhando para o alto, não vi mais os velhos morcegos que cruzavam os seus espaços. Nem os fantasmas.

Isso é ruim, pois não há cidade que sobreviva sem a sua coletividade de fantasmas, esses acionadores da memória.

E acho que descobri outro dos vazios da cidade: os sons. São outros, os sons. E os antigos ou foram abafados ou também se esconderam.

Deixei de ouvir, por exemplo, o apito da Fábrica Boyes. Será que ainda há aquele apito, ou outros sons o espantaram? E as carroças que faziam mudanças leves, com seus cavalos cabisbaixos marchando nas ruas de paralelepípedos? E o carrinho que vendia gelo? E o realejo, onde está o realejo? E os meninos que vendiam amendoim, “amendoim torradinho”, um som lindo que até se tornou música e nome de música? E o barulho rumorejante do salto, nas madrugadas silenciosas de cidade?

Ora, uma cidade que perdeu seus fantasmas e também os seus sons acaba, inevitavelmente, perdendo a própria identidade. É uma outra cidade. E é esse o problema, pois as coisas, antes de serem perdidas, precisam ser assinaladas. O novo não poderia, jamais, ter espantado o antigo, ou o antigo fugido de novo. Era preciso que se assinalassem.

Assim, fantasmas antigos e fantasmas novos estariam assustando pessoas por aí, acelerando corações e, ao mesmo tempo, mantendo viva a memória das coisas. E os sons também se misturariam.

Outra vez, indo ao cinema, vi a máquina de fazer pipoca, o pessoal comendo pipoca e assistindo filme. Eu também comi. Mas fiquei perguntando-me por que não se vendem mais saquinhos de amendoim torradinho no cinema? Será, talvez, porque as pessoas vão pouco ao cinema?

Não entendi mais nada.

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