Farrapos humanos

FarraposSe me perguntarem qual solução dar, não tenho respostas. A não ser a de uma profunda e revolucionária mudança de um estilo de vida que entrou em colapso. Toda e qualquer outra tentativa parece-me simples remendo ou esforços paliativos. Os destroços espirituais do mundo ocidental deixam a descoberto fossos profundos de tolices cometidas em nome da economia, massacres humanos.

Em quase cada esquina de nossas cidades, nas calçadas, há multidões de farrapos humanos que não mais sensibilizam a ninguém. São homens e mulheres, moradores de rua; são crianças e adolescentes sonambúlicos, destruídos pelo crack; multidões de prostitutas e travestis que desfilam tragédias transformadas em fatos ou cenas comuns. Que fazer, como resolver? Ou ficamos como estamos, fazendo nada, ou nos decidimos a promover a revolução que reconstrua valores e princípios estilhaçados pela sanha de uma economia selvagem onde a pessoa humana, para ter alguma importância, é medida pela sua capacidade de consumo.

Há poucos dias, estarreci-me com minha própria impotência, com minha então revelada, para mim mesmo, incapacidade de tomar decisões. No centro da cidade, diante de uma escola famosa e centenária, deparei-me, na calçada, com cinco adolescentes – duas meninas, três meninos – estirados no chão como bichos, cheirando crack e engalfinhados como cães vira-latas disputando restos de latas de lixo. Pessoas passavam por eles, desviavam-se. Na esquina, uma viatura policial – das designadas para assegurar a segurança de escolares – nem sequer percebia o espetáculo dantesco dos adolescentes. OU, então, já se acostumara a assistir ao filme de horror. E, então, estarreci-me comigo mesmo, com minha incapacidade de agir, de fazer, de tentar resolver. Pois, passei ao lado dos garotos, a poucos metros deles, e nada fiz.

E nada faço nas esquinas, quando crianças, atordoadas de drogas, estendem as mãos pedindo alguns centavos. E nada faço vendo homens e mulheres dormindo nas calçadas, embrulhados em jornais. E também nada faço quando leio letreiros da Prefeitura orientando o povo a não dar moedas nas esquinas, sem, no entanto, apresentar soluções ou propor alternativa. Fico, então, com a tentação de uma hipótese que me horroriza pelo próprio horror que, se verdadeira, ela representa: será que, diante da verdadeira infestação humana que já assola o mundo, não estamos criando o consenso de que é melhor deixar que pessoas, incluindo crianças, morram o mais rápido que puder, pois dá trabalho, custa dinheiro, exige esforços cuidar delas ou prevenir tragédias? Será, vejo-me tentado a admitir a hipótese repulsiva, que não estamos estimulando o genocídio dos desvalidos, dos miseráveis, dos indefesos, dos sem futuro, exatamente por não mais termos nenhum futuro a lhes oferecer ou um mínimo de solidariedade humana?

Não tenho respostas. A não ser a de – em vez de tantas marchas que se promovem por aí, marcha por Cristo, marcha dos sem-terra, marcha pela maconha, marcha dos gays, marcha de lésbicas – promovermos uma poderosa cruzada de ordem moral que exija o restabelecimento de valores e de princípios perdidos, os universais princípios e valores da dignidade humana que não mais pode continuar sendo subjugada por interesses políticos, econômicos e mercantilistas. Mas isso dá trabalho, muito trabalho. E por que ou para quê trabalhar para um outro, esse desconhecido, especialmente se ele estiver jogado nas sarjetas ou morrendo nas calçadas?

Está cada vez mais difícil encerrar textos desejando bom dia. Mas, bom dia.

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