“Faz mal para a saúde”

InsôniaMédicos de alguns amigos meus lhes recomendaram não assistir a telejornais especialmente no período da noite. A princípio, pensei fosse exagero. Com o tempo, no entanto, comecei a perceber, em mim mesmo, alguns incômodos. Comecei a sentir que me irritava conforme o noticiário, que a ansiedade aumentava e havia alterações na minha já instável pressão arterial.

Na verdade, a primeira observação que, há anos, me vinha à cabeça era em relação ao controle da natalidade. Passei a achar inútil e até prejudicial qualquer campanha a favor do controle do nascimento de bebês, esse medo de uma ainda maior explosão populacional. Ora, pelo noticiário da tevê o que se percebia – e, agora, com mais intensidade – é que a população mundial está diminuindo, tal o enorme número diário de mortes. São bombas que explodem, tragédias causadas por chuvas, ventos, tsunamis, vulcões; são bandidos matando inocentes, desastres de aviões, de veículos de trens; ciclistas e motociclistas mortos em série. Ora – comecei a pensar – está mais morrendo gente no mundo do que nascendo.

Confesso – mesmo com minha já longeva carreira jornalística – manter a mesma dúvida que me intriga desde o início: é a imprensa que alimenta a fome de sensacionalismo do leitor ou é o sadismo do leitor que alimenta a fome sensacionalista da imprensa? Ainda não sei. No entanto, tenho certeza de que a noção de notícia precisa ser revista e alterada. Antes, notícia era o que fugisse ao normal do cotidiano. E dava-se, aos iniciantes e também em faculdades, o exemplo clássico: “Se o cachorro morder o homem, isso não é notícia; se o homem morder o cachorro, é notícia.”

Corrupção, por exemplo. Antigamente, a descoberta da corrupção na administração pública ou em políticos era notícia realmente espetacular. Para se ter uma pálida idéia: o líder populista Adhemar de Barros – por todos acusado de corrupção sem que se apresentassem provas – acabou condenado por ter levado para sua casa uma urna marajoara, objeto de valor histórico. Precisou refugiar-se na Bolívia. Getúlio Vargas suicidou-se porque capangas seus – e sem que ele soubesse – tentaram dar um sumiço no jornalista Carlos Lacerda.

Ora, corrupção, hoje, não é mais notícia alguma. Tornou-se parte do cotidiano, algo tão comum e banal que não desperta mais interesse no leitor. Notícia verdadeira, notável, sensacional é descobrir e revelar políticos honestos e decentes. A honestidade é notícia; a desonestidade, questão banal. E tão banal que é preciso reverenciar a profecia de Ruy Barbosa de que dia chegaria em que o “homem terá vergonha de ser honesto”. Chegou faz tempo. O honesto é considerado tolo, incapaz, incompetente.

E a matança no Oriente Médio? As guerras entre etnias e religiões, as bombas, as explosões, os atentados? E os estupros, exposições sexuais, pedofilias? Que novidade ainda há nisso, se o caos se instalou e se repete todos os dias? Duvido haja alguém que – ligando o televisor para assistir a algum noticiário – já não saiba, de antemão, que algum atentado aconteceu, que bombas explodiram, que políticos delinqüiram.

Recordo-me de quando – como diretor de O DIÁRIO – combinei com Losso Netto – diretor do Jornal de Piracicaba – para não mais divulgarmos notas policiais. Fizemos o pacto e passamos a cumpri-lo. Não durou uma semana. Leitores de ambos os jornais telefonavam indignados, querendo saber porque não mais divulgávamos o noticiário da Polícia. Tivemos que ceder. E, pouco a pouco, aquilo que eram notas policiais em uma coluna de página interna passou a ser matéria de primeira página, até mesmo manchete principal.

O que é mais importante e notável: a morte ou a vida? Se depender de leitores e de jornais, a morte continua sendo notícia, pois vence a vida. De tal forma, que jornais têm a secção de obituários mas nenhuma informação sobre nascimentos. Convenhamos: há algo de mórbido em nossa civilização e em nossos tempos. Passo, pois, a dar razão aos médicos de meus amigos: “Ver telejornais à noite faz mal para a saúde.” E alguns outros programas também. Bom dia.

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