Feitiços especiais para candidatos

picture (68)Há alguns anos, senti inveja de quem é dono de emissora de televisão e desejei ter uma só para mim. Como nunca tive dinheiro, convidei alguns amigos e tomei uma decisão: fundar uma igreja. Expulsar demônios e prometer salvação tem sido um grande negócio. Dá para comprar até rede de televisão.

O plano era formidável e meus sócios, gente qualificada: os sempre presentes Cerinha e Gregório Marchiori. Este, com suas maravilhas no mundo da mágica, tiraria coelho de cartola, faria fumaça sair de nariz de pecador, anunciando a presença do diabo. O Cerinha, bancário aposentado, passaria com uma carrocinha colhendo contribuições, esmolas, dízimos. De minha parte, eu exorcizaria os demônios das pessoas, que todos nós temos os nossos. Com a arrecadação de umas oito semanas, já teria bastante para negociar uma emissora de televisão, como tem acontecido por aí. Quem tem igreja tem emissora. Ou, então, apossa-se de uma universidade confessional e faz a festa.

O plano não foi à frente, mas a vontade sempre volta em tempo de eleição, quando igrejas se tornam mais valorizadas. Pastores indicam, aos fiéis, os candidatos que Deus anotou em seu caderninho divino. O negócio é bom. O Roberto Moraes, ainda deputado, trombeteava para todo mundo ouvir que perdeu a eleição para prefeito por não ter 500 mil reais para negociar com um pastor que, à falta de acordo, decidiu que Deus mudara de idéia e de candidato.

O mercado da fé melhorou muito. E globalizou em técnicas, incluindo banho de descarrego, antes prioridade de candomblé. A procura é grande: mulher abandonada, homem traído, pessoa desempregada, impotência masculina, frigidez feminina. Para tudo, há banho de descarrego. E com odores especiais: rosa branca para fracasso de amor; arruda contra espírito de porco; açafrão para reconquistar amor perdido. Há igrejas refrescantes como sauna. Ou, em tendo hidromassagem, como motel.

Tomei um banho de descarrego quando escrevia o livro da Magic Paula, mulher com mistérios demais. Quis descobri-los e consultei astrólogos, pessoal do tarô, de umbanda, de candomblé. A Unicamp indicou-me a mais poderosa mãe de santo da época. Conversamos, ela me falou, convicta: “Para descobrir os segredos da mulher Paula só tomando banho de descarrego.” Levou-me por um corredor, abriu uma porta: era um banheiro perfumado, colorido de ervas e de cores. Nele, estavam moças belíssimas, negras, vestidas de branco. Assustei. “Tire a roupa”, ordenou a mãe. O pânico bateu. Vi os baldes d´água, imensos. Para abreviar: tacaram-me no banho, peladão. Sobre a Paula, o banho nada falou. Mas gostei.

Atualmente, o mercado está ótimo para montar uma igreja eclética. E confesso ter enriquecido meus conhecimentos esotéricos e a biblioteca de mistérios. Já me sinto em condições de atender também políticos, principalmente os financiados por empreiteiras. Isso, pois, exclui o meu amigo Baiano. Mas, para ele, gente boa, faço mágicas de graça. Aos que puderem pagar, providencio o “Feitiço do Mocho”, infalível mistério de Santo Antão, infalível, especial para mulher desprezada. Faz-se assim: no quarto dia após a menstruação da pobrezinha, corta-se o pescocinho do mocho, põe para curtir em álcool. Se o homem dela beber uma só gotinha da beberagem, ficará preso pelo resto da vida.

Funciona, também, com políticos, cercados por tantas mal amadas em seus partidos. Basta escolher uma. E bom dia.

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