Festa do bode e barbárie

A tal da “Cidade Limpa”, com retirada de placas, outdoors, afastamento de flanelinhas e de panfleteiros, até agora não apareceu. Por isso, quando leitores protestam contra desrespeitos ao silêncio em Piracicaba, não resisto e bebo um copo d´água. Assim, afogo a mágoa. Ou finjo. Pois nada há – seja onde for – mais revelador de incivilidade, de barbárie, do que a opção pelo barulho. O silêncio é atributo dos civilizados, valor da civilização, especialíssimo bem dos que sabem conviver com a harmonia do mundo. O barulho se acompanha de um qualificativo: infernal. Os franceses tem, entre outras, uma expressão adequada à balbúrdia: “faire le diable à quatre”. O diabo e o barulho andam em grupo.

Em Piracicaba, até igrejas azucrinam os ouvidos e atormentam os espíritos com ruídos que se espalham pelo ar, imprecações, berros alucinados. É em nome de Deus que pregadores, pastores, evangelizadores nos arrebentam os tímpanos, ruídos de quem guincha, rincha, ronqueja. Em casas comerciais, altifalantes – à vontade na casa da mãe Joana – ribombam, estrondam, atroam, aturdem, enlouquecem as pessoas que, sem saída, fogem aos montes de lixos espalhados pelas calçadas. São retratos da cidade “cheia de flores, cheia de encantos.” E que adoramos tanto.

Nas esquinas, o ruído e o escarcéu transformados em meios de divulgação. É a “mídia” de vendedores, de ambulantes. Jovens e alguns não tão jovens – mas grosseiros, ao estilo novo-rico – colocam caixas de cerveja em seus poderosos carrões, “pegam um som” ao mais alto volume das máquinas de guerra lá deles. E – em fins de semana – todos os bodes se soltam, espalhando-se pela cidade, a farra sem controle.

Festejam-se desde o aniversário do cachorrinho até as dez últimas posições do Kama-sutra. É uma festa. Que atinge o seu esplendor máximo com forrós, funk, axé, sei lá. E, agora, até com “forreggae”, misto de reggae e forró, vejam que beleza. E uma outra novidade: dançar só com percussão, tum-tum, tum-tum. Como índios em véspera de guerra.

Ora, o município tem uma secretaria de meio ambiente. Mas, pelo visto, a poluição sonora não está em seus cuidados de equilíbrio ambiental. Pois, até em áreas residenciais – e nem sempre com permissão legal – chácaras, garagens, quintais, edículas servem para a e à festa do bode, apesar dos pedidos de socorro feitos pelas famílias civilizadas. O “lobby da bagunça” é poderoso. Ou, então – tolos que somos – ainda não percebemos deva haver, talvez, um projeto turístico, um projeto, ah! – como se diz mesmo? – um projeto cultural: Piracicaba, “farra do bode, cidade onde tudo pode.”

Há que recear venha, em breve, alguém propor a mudança do nome da cidade. Para barbaria, terra da barbárie, sem lei e sem ordem. Pois, pela impunidade, a barbárie parece ter voltado para ficar. Quando homens públicos se calam diante dela, deve-se, pela omissão deles, acreditar que a aprovam. Que se há de fazer, senão continuar protestando, como faz a imprensa, como fazem os leitores? Se servir de estímulo, é bom lembrar que até o Vaticano tem convidado a humanidade a redescobrir a bem-aventurança do silêncio.

Ora, embora autoridades finjam não ver, sabe-se onde e como termina a farra do bode: na tragédia. Pois o nascimento dela está no “canto do bode” e são esses seu nome e sua sina. Tragédia é o desfecho da farra, das bebedeiras, o sacrifício do bode nas festas dionisíacas. Talvez, por isso, a lei de Moisés tenha ordenado o sacrifício do animal para purificar o povo hebreu. É uma lição: ou se mata o bode ou a farra continuará até a tragédia final. Nosso bode tem nome: impunidade. Bom dia.

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