Festa e alegria no Paraíso

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Festa não é, necessariamente, alegria. Nem alegria é, sempre, festa. Pode haver festas tristes. E, também, alegria sem ser festiva. No entanto, quando festa e alegria comungam entre si, eis que as pessoas, a vida, o próprio mundo apresentam a leveza da felicidade. Para derrotar o povo brasileiro, basta atingir-lhe a alma com dardos de ódio, de tristezas, de pessimismo, de derrotismo artificial. É o que, nos últimos meses, os profissionais da tese do “quanto pior, tanto melhor” tentaram fazer. E não conseguiram. Mas alguns tentaram covardemente mascarados.

É tolice das mais lastimáveis querer negar ou vulgarizar os dois motores culturais que animam a nossa gente, apaixonando-a: carnaval e futebol. O mundo nos olha espantado, enciumado, abismado com essa festiva alegria coletiva. A abertura da  Copa do Mundo trouxe à superfície, novamente, o “homem cordial” que Sérgio Buarque de Hollanda – em “Raízes do Brasil” – enxergou como característica da gente brasileira. A palavra cordial se origina de “cor, cordis”, coração em latim. Por mais se discuta a revelação de Sérgio Buarque, a grande verdade é que o brasileiro é, realmente, movido pelo coração, pelos sentimentos, emoções, paixões. A emoção vence a razão. Mas são emoções generosas, afetivas, solidárias, ao mesmo tempo que refratárias à imposição de leis formais e de regras.

Somos, sim, o “país do jeitinho”, o de “dar um jeito”. Fazemo-lo em nosso cotidiano e na vida social. Desde a colonização, o brasileiro foi submetido a imposições imperiais, injustas, desumanas. E, com isso, aprendeu a “dar um jeito”, a ser feliz com o “jeitinho”, pouco confiando ou acreditando nos poderes constituídos, todos eles contaminados por vícios de origem. Somos a gente da “hora agá”, do “último minuto”, da “última hora”, da pontualidade descompromissada. E, portanto, de uma ética duvidosa, de uma civilidade diferenciada. A civilização européia contaminou as elites, mas não chegou ao povo. A cultura imperial estadunidense inspirou as forças econômicas, mas, também, não  ao povo. Pois a alma nacional é outra. Flexível, malemolente, adoravelmente malandra. Somos o povo que culpa os políticos por corrupção, mas que não se recusa a dar  gorjeta ao guarda da esquina para não ser multado, a  oferecer propina para ser atendido primeiro.

Não resta, aos oprimidos, outra saída senão a de sobreviver por seus próprios recursos. Em vez de revoluções e guerras, o brasileiro – nessa amorável miscigenação entre índio, branco e negro – escolheu a alegria, a festa, o jeitinho. E tornamo-nos um povo eclético, sincrético até mesmo na religiosidade: umbandistas, católicos, cristãos de diversas denominações, candomblés, espiritismo – todos se relacionam e sabem conviver.

Não há como não se orgulhar – pelo menos é o que sinto e o que vibra em mim – ao ver esse a povo ocupando as ruas com bandeiras, com cores, com vivas e hinos, acolhendo generosamente os visitantes, hospedando-os com alegria, homenageando-os com cânticos, danças, missangas. O Brasil – desculpem-me os pessimistas, incluindo os que, para desculpar,  se dizem  “otimistas bem informados” – desculpem-me eles, mas o Brasil é o Paraíso do mundo, a terra da “Santa Cruz”, onde “haverá de correr o leite e o mel”. Não adianta querer entristecê-lo, diminuí-lo, desvalorizá-lo por egoísmos pessoais ou grupais, por interesses ligados às mais diversas forças de poder. O Brasil é o Paraíso. E, agora, a alegria está de volta, a festa acontece, o samba está nas ruas, o futebol empolga e fascina. Somos, de novo, o “Brasil, meu brasileiro”, cantado no nosso hino nacional popular, a “Aquarela do Brasil”.

A vitória de ontem alimentou a alma. E não importa se formos ou não campeões. O Brasil voltou a festar. E o homem cordial ressurgiu. Bom dia.

2 comentários

  1. John em 13/06/2014 às 10:13

    “Quem ganha e perde as partidas de futebol é a alma.” Nelson Rodrigues. Vai Brasil!

  2. Delza Frare Chamma em 26/06/2014 às 10:16

    Delícia de crônica, amigo Cecílio. Deixo aqui o trecho final de uma música do nosso Chico Buarque sobre o nosso amado futebol:

    “…Mas
    Que rei sou eu
    Para anular a natural catimba
    Do cantor
    Paralisando esta canção capenga, nega
    Para captar o visual
    De um chute a gol
    E a emoção
    Da idéia quando ginga

    (Para Mané para Didi para Mané Mané para Didi para Mané para
    Didi para
    Pagão para Pelé e Canhoteiro)”

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