Ficção e realidade

picture (45)Há quem pergunte, a artistas, na obras deles: o que há de ficção; de realidade, o quê? Hoje, no entanto, parece questionamento inútil. Pois a realidade suplanta a ficção, na incapacidade de o pensamento e a alma humana criarem além de tudo o que aí está, mistérios que se encontram a cada passo, comédias e tragédias, sons e cores. Até mesmo o absurdo. A realidade é capaz de revelá-los mais detalhadamente do que qualquer ficção, espantando-nos.

Ora, realmente, nada se cria. O que existe – maravilhas e feiúras – fica à vista, oferecido aos sentidos, à espera tão somente de ser captado, registrado, reproduzido. A beleza está, parece-me, no mistério de o ser humano ver à sua própria maneira, sentir cada qual singularmente. E, diante da realidade, espantar-se como se ela fosse ficção. Basta ver coisas em televisão, lê-las em jornais e revistas. Há cenas de que se duvida, tão inverossímeis se mostram. E, no entanto, são reais.

Um contador de histórias precisa, apenas, estar de olhos e ouvidos abertos, alma disponível. Certa vez, contei do que vi num estacionamento de supermercado, aguardando meu pessoal retornar das compras. Pela janela do automóvel, o cotidiano desfilava: homens e mulheres indo e voltando, crianças, adolescentes. O grotesco e o ridículo, o amorável, o misterioso. Bastava olhar, apenas olhar. Cada uma daquelas pessoas ocultava uma história, mas com cenas feitas, prontas, acabadas. Eram atores.

De repente, entre automóveis novos e antigos, surgiu um homem a cavalo, figura que imaginei estivesse abolida do cotidiano. De chapéu, botas com esporas, amarrou as rédeas da sua montaria num poste, entrou no supermercado. Logo depois, retornou com o carrinho de compras. Colocou todas as sacolas de plásticos dentro de um grande fardo de pano, deixou-o ao lado do poste. Olhou para os lados. E, então, vendo um rapaz aproximar-se, pediu ajuda. Ajustou-se na sela, pediu que o moço lhe desse o fardo, prendeu-o entre os joelhos, deu um tapinha na aba do chapéu, agradeceu, esporeou o cavalo, foi-se embora. Fellini não imaginaria cena igual.

Ainda através da janela, vi outro quadro: era uma história de amor. E, se houvesse algum descuido, poderia ter desenlace trágico. Percebia-se ser uma família: o homem, a mulher, dois filhos pequenos. Mas, acompanhando-os, estava uma jovem. Era ela, a moça, o núcleo do drama, no estacionamento do supermercado. Enquanto a mulher cuidava das sacolas e das crianças, o homem olhava enternecido para a jovem.

E, de repente, como se tivesse esquecido algo, a mulher retornou ao supermercado. No estacionamento, ficaram o homem, os dois filhos, a moça.O homem fez as crianças entrarem no carro. E, então, do lado de fora, tomou as mãos da jovem, puxou-a de encontro a seu corpo. Falou-lhe algo no ouvido, beijou-a no rosto. Ao perceber a mulher retornando, o homem e a moça distanciaram-se um do outro. Era uma história de amor, de infidelidade, de traição, de adultério. Em plena luz do dia, aos olhos de todos. Uma história real, sem qualquer ficção. Mas poderia ser escrita, contada, como a conto. E passar por ficção. Tendo sido, porém, apenas um olhar através da janela.

Não parece ficção um jornal, na mesma página, dar que o jornalista foi preso, que o vereador defensor dos deficientes está sendo averiguado, que um ex-professor de uma instituição espezinhada se torna reitor de universidade federal? E é o real. Viver, pois, é divertido. Pelo menos, às vezes. Bom dia.

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