Filmes e mensagens

Há filmes cujas mensagens são perturbadoras. Uma das finalidades da arte está em transmitir aquilo que se pensa ou com o que se sonha. E, quase sempre, o artista transmite sentimentos ou expectativas que permanecem latentes na alma humana, como se o povo não tivesse, ainda, consciência daquilo que está ocorrendo. De minha parte, confesso que sou, sempre fui apaixonado por cinema.

Um dos hábitos que adquiri – e talvez, o mais salutar deles – é o de assistir a um bom filme todas as noites, antes de mergulhar na minha solidão de escrevinhador. Não se trata de “hobby”, mas quase de uma necessidade terapêutica. No cinema, há, ainda, vida inteligente, quase que ao contrário da televisão, onde produtores e diretores parecem não ter descoberto, ainda, a sensibilidade do povo, a sua argúcia e, mais do que isso, o desejo que o povo tem de se ver diante de espetáculos sensíveis.

Uma vez estive com alguns jovens que trabalhavam com teatro. Impressionou-me a discussão que tiveram sobre a relação povo-espetáculo. Jovens ainda naquela época, eles haviam percebido que, na verdade, o povo quer qualidade, emoção. “É preciso confiar no povo”. – dizia o diretor. E ele estava certo. Pois, muitas vezes, o povo pode não entender, intelectualmente, o que está vendo ou presenciando. Mas sente. E, hoje, mais do que nunca, é necessário sentir.

A razão está embotada pelo excesso de informações puramente periféricas ou deformadas. O povo não está conseguindo raciocinar no sentido de encontrar respostas ou soluções, nem mesmo no sentido de avaliar e de acreditar.

No entanto, o povo tem intuição. Isso é o sentir. Pois é o que o cinema, quando bem dirigido e como espetáculo sensível, consegue fazer. Desperta emoções e, por elas, conduz à reflexão.

Muitas vezes, há histórias que parecem banais. E estamos num tempo em que, não havendo sexo explícito ou violência sanguinolenta, tudo é banal. Mas é esse sabor da banalidade, o prazer dela, que nos está faltando. Intoxicaram-nos de filosofias, de dogmas, de imposições ideológicas, e se esqueceram de que a alma humana tem fome de sentimentos. No fundo, no fundo, o que o ser humano mais busca é essa banalidade a que se deu o nome de felicidade. As pessoas querem ser felizes, apenas não sabem mais como.

O filme, a que me referi logo ao início da crônica e que vi há muitos anos, é uma história banal de homens que, em plena guerra e querendo guerrear, descobrem, como se estivessem num “intermezzo”, que os prazeres do cotidiano são mais importantes, ainda que estivessem esquecidos. Há uma epígrafe antecedendo o filme: “em certos momentos da vida, tudo o que resta a fazer é fugir”.

Trata-se da fuga dos massacres ideológicos, do cotidiano ideológicos. E o encontro do cotidiano banal, onde está, na verdade, o encanto de viver.

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